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TRANSTEXTUALIDADE
Segundo Gérard
Genette, em Palimpsestes
cinco são os tipos de relações transtextuais:
1.
Intertextualidade, considerada como a presença efetiva de um texto em outro texto. É a
copresença entre dois ou vários textos: citação,
plágio,
alusão.
Estudar a intertextualidade é analisar os elementos que se realizam dentro do texto (inter).
2.
Paratextualidade, representada pelo título, subtítulo, prefácio,
posfácio,
notas marginais, epígrafes,
ilustrações... Este campo de relações é muito vasto e inclui as notas
marginais, as notas de rodapé, as notas finais, advertências, e tantos outros
sinais
que cercam o texto, como a própria formação da palavra está a indicar.
3.
Metatextualidade, vista como a relação crítica, por
excelência. É a relação de comentário que une um texto a outro texto.
4.
Arquitextualidade, que estabelece uma relação do texto com
o estatuto a que pertence – incluídos aqui os tipos de discurso, os modos de
enunciação, os gêneros literários etc. em que o texto se inclui e que tornam
cada texto único.
5.
Hipertextualidade. Toda relação que une um texto (texto B –
hipertexto) a outro texto (texto A – hipotexto).
Genette esclarece que seu conceito de transtextualidade alcança “tudo o que coloca (um texto) em relação,
manifesta ou secreta, com outros textos”, ou seja, aquilo que ele chama de
relações transtextuais.
Não se pode considerar, por outro lado, que as várias formas de
transtextualidade apareçam como classes estanques, sem comunicação. Ao
contrário, elas atuam de forma muitas vezes conjunta e complementar, sendo
essas relações numerosas e decisivas na construção textual.
Vejamos algumas possibilidades:
-
a arquitextualidade constitui-se quase
sempre por meio da imitação;
-
a aparência arquitextual de muitas obras é, com
freqüência, demonstrada por meio de indicadores paratextuais;
-
tais indicadores são, por sua vez, pequenas
formas de metatexto;
-
o paratexto, prefacial ou outro, inclui
diferentes formas de comentário;
-
o hipertexto tem também valor de comentário;
-
o metatexto crítico somente se realiza com
a inclusão de citações (intertextos
citacionais);
-
o hipertexto realiza-se por meio de alusões textuais ou paratextuais.
Hipertexto seria, para Genette, todo texto derivado de um outro
texto – que lhe é anterior –, por transformação simples, direta, ou, de forma
indireta, por imitação. Engloba uma classe de gêneros, como a paródia, o
pastiche, as fantasias [travestissement] (tudo é transformação: certas
epopéias, certos romances, certas tragédias, certas comédias, certos poemas
líricos, ao mesmo tempo, pertencem a seu gênero textual e são, também,
hipertextos de outros textos já
existentes). Muitas vezes, no próprio hipertexto está a marca paratextual que o
liga ao hipotexto (veja-se como os títulos dados às muitas versões criadas a
partir da Canção do exílio, de
Gonçalves Dias, anunciam desde logo a aproximação entre elas existentes). Essa
marca (esteja ela no título ou em outro recurso que aponte para o leitor a
relação entre os textos) é um indicativo paratextual que o autor remete a seu
leitor.
As várias formas de transtextualidade são aspectos da
textualidade. Considere-se a textualidade como a característica que identifica
o texto – um texto só existe por sua textualidade, ou seja, pelas
características que o tornam um texto. Dessas características, fazem parte os
recursos transtextuais. Mesmo transtextuais, os textos podem ser relacionados
aos gêneros a que pertencem. Por exemplo, embora seja um recurso transtextual,
o prefácio é um gênero reconhecido em si mesmo.
Cabe aqui um aprofundamento nas práticas englobadas no termo
hipertextualidade. Genette considera a hipertextualidade como um aspecto
universal da literaridade. Afirma que não há obra literária que não evoque, de
alguma forma, alguma outra. Nesse sentido, todas as obras seriam hipertextuais.
Destaca, no entanto, aquelas que, segundo ele, são massiva, manifesta e
explicitamente uma retomada de outras.
A paródia é recurso
encontrado com freqüência na literatura. Reside na retomada de um texto,
trabalhado com novas e diferentes intenções daquelas com que foi criado por seu
autor. Encontramos paródias humorísticas, críticas, poéticas.
Detendo-se na etimologia da palavra, Genette nos faz lembrar que ode é canto, canção e para, aquilo que se desenvolve ao longo de, ao lado de. Logo, a paródia
seria um contracanto, uma canção transposta.
Genette destaca três possibilidades de paródias representadas na tradição
literária:
1.
a aplicação
de um texto nobre, modificado ou não, a um diferente assunto, geralmente
vulgar;
2.
a
transposição de um texto nobre para um estilo vulgar;
3.
o emprego de
um estilo nobre (epopéia) de uma obra singular a um assunto vulgar ou não-heróico.
A forma mais rigorosa de paródia
consiste na retomada de um texto conhecido para lhe dar um novo sentido ou
mesmo desligá-lo de seu contexto e de seu nível de dignidade. Ela se faz, nesse
caso, paródia de umas poucas frases, textos curtos, provérbios, ditos
históricos tomados em outro sentido que não o original. Com essas
características, funciona elegantemente como um ornamento dentro do texto que a
abriga.
Encontram-se paródias
que consistem em mudar uma letra em uma palavra; outras trocam uma palavra de
um verso; outras ainda, sem qualquer alteração textual, suprimem o sentido de
uma citação, ao dar-lhes um novo contexto. Existem aquelas que compõem toda uma
obra nos moldes de outra, modificando-lhe o assunto ou o sentido mediante
alteração de certas expressões.
Uma outra forma de paródia, que se caracteriza por desenvolver
textos de acordo com o gosto e o estilo de autores pouco aceitos, é vista por
Genette como imitação estilística com função crítica ou ridicularizante. Essa
paródia de aspecto caricatural recebe a denominação específica de pastiche.
Mencionando
Proust, Genette afirma que o pastiche
é “a crítica em ação”. (p.15)
Genette
destaca também uma outra forma de hipertexto – a fantasia [travestissement]
burlesca –. Essa fantasia burlesca modifica o estilo sem modificar o assunto,
ou seja, embora retome assuntos consagrados, sua forma é vulgar, burlesca,
aproximando-se dos gêneros cômicos, ao contrário da paródia que modifica o
assunto sem modificar o estilo. Resume o autor: “a paródia modifica o assunto sem modificar o estilo, e isso de duas
maneiras possíveis: seja conservando o texto nobre para aplicá-lo o mais
literariamente possível a um assunto vulgar (real e atual): é a paródia
estrita; seja forjando, por meio da imitação estilística um novo texto nobre
para aplicá-lo a um assunto vulgar: é o pastiche herói-cômico”.
Buscando
tornar mais exato o emprego dos termos que designam as várias formas de
hipertextualidade, Genette propõe duas classificações: uma classificação
funcional e uma classificação estrutural.
A
primeira delas (classificação funcional) estabelece as funções satírica (incluindo a paródia, a
fantasia [travestissement] e a charge) e não-satírica
em que se situa o pastiche.
A
segunda (classificação estrutural) prende-se à forma de relação
hipertextual.
Aqui, a paródia e o travestissement
são considerados textos que mantêm com seu texto-matriz (hipotexto) uma relação
de transformação; sendo a charge e o pastiche vistos como
textos de imitação.
Acrescenta
Genette que, se a paródia for definida apenas por sua função burlesca, nela não
podem ser incluídas obras como o Ulisses de Joyce. Assim, propõe uma terceira
forma de classificação das práticas hipertextuais que incluam as transformações
e imitações sérias. Para as transformações
sérias, propõe o termo transposição,
neutro e de grande abrangência. Para as imitações
sérias, sugere forgerie. (p.43)
Termina,
dessa forma, Genette por estabelecer seis grandes categorias de hipertextos.
Nessas categorias, incluem-se todos os textos construídos por transformação de
outros textos.
Assim,
numa relação de transformação, a paródia
está incluída como produção lúdica;
a fantasia, como produção satírica; a transposição, como produção séria.
Na relação de imitação, o pastiche é
considerado como produção lúdica; a charge, como produção satírica; e a forgerie, como produção séria.
Um
hipertexto pode ser lido em si mesmo ou em sua relação com o hipotexto. Essa
leitura palimpsêstica, um verdadeiro jogo, permite ao leitor o prazer do
encontro entre o texto e seus pré-textos.
Acrescente-se aqui a paráfrase,
que não pode confundir-se com o plágio,
já que se trata de um exercício de retomada de um texto com o objetivo de
reproduzir-lhe as idéias, de explicitá-las, para tomá-las em consideração.

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