Poéticas Contemporâneas: histórias e caminhos II

Projeto Integrado de Pesquisa

Coordenadora: Maria Lucia de Barros Camargo

1- Introdução

1.1- Antecedentes

Iniciado em março de 1996 (com renovação a partir de março de 98 e vigência até fevereiro de 2000), o projeto "Poéticas contemporâneas: histórias e caminhos", vem se dedicando a, por um lado, mapear periódicos culturais e literários  que  circulam  ou  circularam  no  Brasil  a   partir  da  década  de  70, montando  um  amplo  banco de dados

INTRODUÇÃO

EQUIPE

POÉTICAS CONTEMPORÂNEAS

PUBLICAÇÕES

LINHAS DE PESQUISA

TRABALHOS DEFENDIDOS


Universidade Federal de Santa Catarina
Centro de Comunicação e Expressão
Salas 3 e 4 (térreo)
Florianópolis
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Apoio:  

 

informatizado, e, por outro, através da análise deste material, estudar a produção cultural contemporânea, procurando detectar linhagens poéticas, releituras da tradição literária, construção e desconstrução de cânones. A leitura desse material tão heterogêneo vem se valendo dos conceitos de formação/instituição de Raymond Williams, também adotado por Beatriz Sarlo.

Assim, o primeiro movimento analisado neste período diz respeito ao surgimento, permanência, cruzamento e deslocamentos de três grandes "tipos" de periódicos literários e culturais que circularam no período: a) os "suplementos literários/culturais" dos grandes jornais; b) as revistas literárias e culturais propriamente ditas; e c) um terceiro tipo, cuja existência ficou circunscrita basicamente ao período da ditadura militar, a chamada "imprensa nanica", que, como forma de resistência, floresceu, paradoxalmente, a partir do estado ditatorial e sua instituição censória. Nesta dança não entraram, todavia, as revistas "ilustradas" ou de "variedades", nem os cadernos similares dos grandes jornais. Um ponto analisado foi o modo como se dava essa resistência à censura, não exclusiva dos "nanicos", e que levava à publicação de periódicos culturais identificados como de oposição ao regime - tanto pelos textos "ousados" que veiculavam, como pelos colaboradores identificados como "esquerdistas". Tal resistência garantia, de algum modo, o reconhecimento simbólico e, mais que isso, a sobrevivência material do periódico e, até mesmo, sua próspera longevidade. Longevidade, diga-se, encerrada juntamente com o fim da censura em praticamente toda a imprensa "nanica". Noutros casos, quando tratamos mais especificamente das revistas, lidamos com o surgimento de algumas delas também como forma de resistência ao regime político ditatorial, bem como seu rápido fim por coerção da censura, mas também constatamos que outras nasceram com o processo de liberalização do regime militar, para submergirem coagidas pelas férreas leis do mercado. Dito em outras palavras, não é possível ler o sentido do periodismo cultural e literário brasileiro dos últimos 30 anos sem levarmos em conta uma certa "associação" perversa entre a atuação da censura e a lógica do mercado.

Nesta "dança dos periódicos", é preciso registrar, por exemplo, a força e o posterior desaparecimento dos "suplementos literários" e sua substituição pelos suplementos "culturais", nos quais a literatura (resenhas, crítica literária e o espaço dedicado aos "novos" poetas e narradores) divide o espaço com o teatro, o cinema, as artes plásticas, a filosofia, a política e a divulgação científica. Num segundo momento dessa partilha, cumprindo-se o que Paul de Man já anunciava nos anos 70 em suas alegorias da leitura, isto é, a indiferenciação entre crítica e literatura, o espaço reservado ao literário passa a ser preenchido pelo ensaísmo crítico, e desaparecem as sessões dedicadas à publicação de poemas, contos ou fragmentos narrativos. Confirmando a regra, a exceção se dá pela publicação eventual de traduções e/ou inéditos de autores consagrados, como se pode encontrar no Mais, o atual suplemento dominical da Folha de S. Paulo, que substituiu o Letras, que substituiu o Folhetim.

O segundo movimento examinado, em estreita correlação com o primeiro, seu parceiro nesta dança, foi o dos discursos em circulação nos diversos periódicos, bem como o dos grupos que neles atuam, seja em seus projetos pedagógico-ideológicos, seja em suas funções enquanto constituidores de linhagens críticas, com seus alinhamentos e antagonismos.

1.2 - Fundamentação teórica

De modo geral, os estudos dos periódicos no Brasil têm sido realizados dentro de três campos disciplinares bem demarcados: os estudos literários, os estudos de comunicações e os estudos históricos.

No campo dos estudos literários, os trabalhos desenvolvidos no IEB - USP dedicaram-se, preferentemente, ao mapeamento das revistas literárias modernistas (além de algumas pré-modernistas), com o objetivo mais genérico de documentar/ registrar a produção modernista esparsa. Descrevendo minuciosamente as revistas estudadas, buscava-se contribuir para o estudo do modernismo brasileiro. Tratava-se, portanto, do estudo de um determinado movimento literário, a partir das revistas que o identificam e dele se fazem porta-voz. Hoje, não mais existem revistas literárias com aquelas características, assim como não há mais vanguardas.

Ainda no campo dos estudos literários, podem ser encontrados trabalhos que se utilizam dos periódicos para mapear a produção esparsa de um determinado escritor já reconhecido, sem considerar, no entanto, o veículo dessa produção e as implicações daí decorrentes, tais como, de um lado, o diálogo possível entre os vários textos que circulam no periódico e, de outro, as relações entre os textos periodísticos e a "obra literária" desse mesmo autor.

Outros dois tipos de trabalho com os periódicos brasileiros podem ser encontrados no campo e os estudos de comunicações, que se dedicam, de modo geral, às questões jornalísticas, como o estudo de José Luiz Braga sobre o Pasquim, ou o já antológico trabalho de Bernardo Kucinski sobre a "imprensa alternativa" brasileira na década de 70. Já entre os historiadores, o estudo dos periódicos, mais especialmente dos jornais, é fonte primária para estudos distintos sobre determinados momentos históricos, ou sobre "histórias específicas", como o trabalho de Carlos Guilherme Mota sobre a História da Folha de S.Paulo.

É preciso constatar, no entanto, que a fluidez das fronteiras disciplinares, especialmente dentro do campo das "humanidades", se torna bastante visível em estudos mais recentes. Tais trabalhos, mesmo tendo um determinado campo disciplinar como marca de origem, mesmo que esquiva ou até equívoca, vem produzindo leituras interdisciplinares, ou leituras culturais. Nesse campo podemos arrolar, como exemplo, o estudo de Raúl Antelo (Literatura em revista. São Paulo: Ática, 1984), que persegue os fios tecidos entre cultura e poder no Estado Novo a partir da análise de três periódicos publicados nos anos 30 e 40 (Cultura Política, Revista Acadêmica, Literatura), a pesquisa de Alzira Alves de Abreu sobre os suplementos literários dos anos 50, o trabalho de Heloísa Pontes (Destinos mistos) sobre o "Grupo Clima", que toma a revista como ponto de partida para estudar a produção e o papel cultural do grupo de Antonio Candido. Mais recentemente, temos o estudo de Tania Regina de Luca sobre a Revista do Brasil (A Revista do Brasil: um diagnóstico para a (N)ação).

É também na perspectiva da crítica cultural e da crítica e da crítica literária que o grupo de pesquisadores do NELIC - UFSC vem desenvolvendo seu trabalho, especialmente através do projeto Poéticas Contemporâneas: histórias e caminhos, implantado em março de 96 (ver relatório parcial em anexo e item 1.1 deste projeto).

A mudança no enfoque das leituras, que deixa de focar o estritamente literário, como campo claramente delimitado, em revistas literárias, e dirige o olhar para um campo mais largo, assumindo os periódicos com um campo de cruzamentos discursivos.

2- Objetivos Gerais:

- Desenvolver estudos sobre a produção cultural contemporânea, em suas várias manifestações, através da análise de periódicos.

- Mapear a produção poética brasileira em suas linhagens e releituras da tradição a partir dos anos 60 aos 90.

- Analisar a construção e desconstrução dos cânones culturais.

Específicos:

- Ampliar o acervo de periódicos do NELIC - Núcleo de Estudos Literários e Culturais da UFSC, criado a partir da implantação do presente projeto;

- Tornar acessível aos pesquisadores interessados tanto o acervo do NELIC, para consultas locais, como o banco de dados, através da INTERNET;

- Produzir um conjunto significativo de ensaios sobre a produção cultural contemporânea, abordando-a por vários ângulos;

- Produzir um livro;

- Montar duas antologias das revistas, sendo uma poética e outra ensaística, com os textos mais expressivos de alguns periódicos;

- Montar um "index" dos periódicos brasileiros a partir dos anos 60.

3 - Metodologia

a) Para alimentar o banco de dados do Projeto, são feitos fichamentos de todos as matérias, por volume estudado e agrupadas por periódico, contendo, para cada texto: referências bibliográficas completas, idioma, resumo, classificação do artigo (tipo/assunto), palavras-chaves, tradutor e autores citados.

b) análises quantitativas dos dados: levantamentos preliminares e subsidiários às análises qualitativas, através do levantamento comparativo e percentual das ocorrências em cada periódico ou em mais de um periódico. Elaboração de gráficos comparativos. c) elaborações de índices gerais e específicos.

d) análise qualitativa do material estudado. Além das necessárias referências históricas, a análise dos textos ensaísticos requer um estudo dos discursos a partir da retórica argumentativa. Subsidiam esse trabalho os vários seminários teóricos, bem como cursos específicos, além da participação em eventos pertinentes. Os resultados preliminares desta pesquisa têm sido reunidos em pequenos ensaios produzidos semestralmente pelos alunos bolsistas e publicados no Boletim de Pesquisa NELIC (Núcleo de Estudos Literários e Culturais).