GRACILIANO RAMOS: POESIA DA PROSA, LIRISMO DE INFÂNCIA
Eliane Mattalia
Este
texto, parte de um estudo sobre a poética da prosa de Graciliano Ramos centrado
especificamente na obra Infância, começa com uma citação de Ernest Renan sobre “Poesia
e verdade” — subtítulo
do primeiro volume das Memórias de
Goethe — todas
essas memórias foram publicadas na mesma coleção da José Olympio, ‘Memórias,
Diários e Confissões’, de que Infância
constitui o 9º volume, em
Goethe,
observa Renan, escolhe por título de suas Memórias,
'Poesia e verdade'. (...) o que a gente
diz de si mesmo é sempre poesia (...) A gente escreve tais elicoisas para
transmitir aos outros a teoria do universo que traz em si. [1]
Na
fortuna crítica de Graciliano, Infância ocupa um modesto segundo plano em relação aos romances
(segundo, terceiro e quarto romances, São
Bernardo, Angústia e Vidas
Secas, respectivamente), considerados “centrais”. A crítica lê essa
obra como auxiliar na interpretação dos romances.
Lúcia
Miguel-Pereira constitui uma das poucas exceções, numa resenha de Memórias
do Cárcere, em 1954: “Nunca, a não ser em Infância,
atingiu Graciliano ao domínio aqui revelado de seus meios de expressão
(...)”. “Embora afirmasse ser-lhe penoso escrever na primeira pessoa, ele é,
como memorialista, mais seguro de si, mais
direto, mais denso do que como ficcionista.”[2]
(Para
narrar as aventuras tenebrosas,) soube esculpir frases duras, onde as palavras —
entretanto
as comuns, as que diariamente empregamos — adquirem
contornos resistentes, saliências agressivas, são como pedras, pesam, machucam
(...).[3]
Graciliano
Ramos é um dos escritores brasileiros mais cuidadosos e obstinados com a
escrita. Prosador impecável, sempre
buscou a expressão justa.
Mas
essa densidade poética da prosa, a intensidade psicológica, a máxima
expressividade — ou
expressão intensíssima, breve — não
seria essa mesma a essência do lírico? Parece
este o caminho indicado por Otto Maria Carpeaux, no famoso ensaio “Visão de Graciliano Ramos” de 1943[4].
Caminho para sempre aberto.
De
nossa parte, tencionamos estudar a natureza poética da prosa autobiográfica de
Graciliano, prosa fértil, semeadora de humana emoção estética. Frases de
palavras e silêncios plenos de conotações. Os esteios de nossa pesquisa são
os manuscritos e impressos do escritor.
Estudar
o poético na prosa, — a
“poesia na prosa”, na expressão de Alain[5]
—
implica em conceber a poesia/o poético não num sentido redutor e até
caricato, de poesia atrelada à versificação, anacronicamente; pois, mesmo
antes de ser anacrônica, a versificação nunca foi garantia para o poético, há
versos nada poéticos.
O
que pretendemos discutir, no texto em prosa, são os procedimentos literários
de condensação em ritmos poéticos subjacentes às frases (unidades
discursivas). O lirismo, que explode por dentro, por baixo, em imagens, ritmos
profundos, música das palavras, ainda que música do silêncio, “acorde
supremo”[6].
Sopro de energia psíquica, que o símbolo conserva, na “felicidade” de um
achado, na formulação de uma frase, na palavra exata, flecha certeira que toca
o leitor, mobilizando os afetos.
Assim,
se pretenderia adentrar, conforme orienta Carpeaux, o “coração da criação
pessoal”[7],
o “coração do poema”, do texto poético em prosa, da narrativa autobiográfica
de Graciliano. Tal aproximação intelectual e afetiva a nosso objeto literário
pretende expandir em cognição o sentimento do belo poético no texto, conforme
lição de Léo Spitzer.
Obviamente
um texto em prosa não mobiliza exatamente os mesmos recursos que um poema (que
se sustenta essencialmente em unidades rítmicas, musicalidade, imagens
tensionadas numa situação que as enlaça) — mas
um texto literário em prosa pode empregar, tanto quanto um poema, ritmos frásicos
profundos, combinação de imagens em processos simbólicos, organizações
coerentes, escolha muito criteriosa de palavras. Quais seriam esses critérios
que norteiam o escritor, no esforço de encontrar e combinar os elementos (a
substância narrativa) — moldá-los
poeticamente?
Na
prosa de Graciliano, expressões, frases condensam-se em imagens/figuras: sugerem,
evocam mais do que designam (como ensina o crítico Roger Caillois[8]).
“Sugerem” e “evocam” com a mesma
força com que “designam”. Atuam, como quer Graciliano, como “expressão
justa, que produz emoção e convence”[9].
O
texto (trabalhado lentamente à exaustão) se condensa, as palavras tornam-se
incisivas, dinâmicas. Densas frases solicitam repetidas leituras, agindo sobre
a inteligência e a sensibilidade do leitor, convidando-o sempre a “uma rica
meditação” (Sérgio Milliet[10]).
A
escrita de Graciliano não rasura para expandir, na superfície; elimina da
frase o termo fraco e banal, substituindo-o pelo termo forte, fecundo de conotações.
Na escolha e disposição das palavras, extrai da linguagem seu sumo,
plasticidade, musicalidade. “Rijo” e “sóbrio”, como as urupemas do avô,
o estilo cresce/germina por dentro, o sentido “avulta”[11],
por meio da condensação. Como na fórmula
de Paulo Honório: “extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é
bagaço”[12].
O
principal gesto ou atitude dessa escrita metonímica é a supressão, que reduz
tudo ao essencial:
(...)
queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer com ele o que faço
quando emendo um período — riscar,
engrossar os riscos e transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não
deixar vestígio de idéias obliteradas. (Memórias
do cárcere)[13]
Nossa
ambição é reconstituir processos de elaboração das imagens poéticas, desde
os primeiros esboços nos manuscritos até a obra editada, procurando acompanhar
— de
semente a fruto maduro — a
poética prosa de Graciliano.
Muito
do que a obra de Graciliano representa continua por ser decifrado, desafiando o
leitor, com seus silêncios, lacunas, desvãos, e também ‘asperezas’,
‘arestas’ do estilo incisivo, econômico, que não faz concessões a nenhum
sentimentalismo gratuito, não banaliza os afetos.
O
obstinado ajuste dos detalhes da obra “tormentosa e falha” não constitui
propriamente uma originalidade em Graciliano, mas é traço estilístico
fundamental. O empenho sofrido na busca da expressão infalível já se podia
ler no soneto do mestre (neo)clássico de Camões, Francisco de Sá
de Miranda[14]:
Tardei,
e cuido que me julgam mal,
qu'emendo
muito e, qu'emendando dano.
(...)
Ando
cos meus papeis em diferenças.
São
preceitos de Horácio — me
dirão;
em
al não posso, sigo-o em aparenças.
Quem
muito pelejou como irá são?
Quantos
ledores, tantas as sentenças
c'um
vento velas vêm e velas vão.
Também
a linguagem nua, sem adornos, de Graciliano é confeccionada na forja de Hefesto
— “Somos
sapateiros apenas. (...) e ficamos na tripeça batendo, cosendo, grudando”[15].
Antonio Candido identifica um estilo de quem escreve sem pressa, desde Caetés,
caracterizando-se por uma “lentidão da escrita, escrupulosa, sem ímpeto nem
facilidade, e desvendar a luta por uma visão coesa, partindo de fragmentos
isolados da percepção”[16].
Como
num refúgio, num abrigo transformado em “usina”, ateliê: a linguagem como
arma. “A sintaxe é também arma,
não lhe parece?” escreve a Haroldo Bruno, jovem escritor[17].
Para
alcançar a leveza, a eficácia, a agilidade de Hermes-Mercúrio, a linguagem
depende, numa oposição de complementaridade — do
meticuloso trabalho de Hefesto-Vulcano, como ensina Italo Calvino[18].
(O deus velho e manco, artífice-artesão, põe asas nas sandálias do jovem
mensageiro, de alígeros pés.) [19]
Sintaxe
classicizante, regência exata viram “arma” para dizer a “verdade”. Como
se lê programaticamente nas crônicas:
Os
inimigos da vida torcem o nariz e fecham os olhos diante da narrativa
crua, da expressão áspera. (...)
São
delicados, são refinados, os seus nervos sensíveis em demasia não toleram a imagem
da fome e o palavrão obsceno. Façamos frases doces. Ou arranjemos torturas
interiores, sem causa. É bom não contar que a moenda da usina triturou o
rapaz, o tubarão comeu o barqueiro e um sujeito meteu a faca até o cabo na
barriga do outro. Isso é desagradável.
É
mesmo. É desagradável, mas é verdade.
(...)[20]
Não
mudar os gritos em suspiros, as pragas em orações[21].
As
fronteiras entre poesia e prosa, em grande parte, há muito deixaram de ser
precisamente demarcadas e, de certa forma, muitas vezes se interpenetram.
Mencione-se, por exemplo, a entrada do “prosaico” para o poético num João
Cabral, num Bandeira, num Drummond; ou a presença marcante da poesia na prosa
de um Rubem Braga, de um Guimarães Rosa, de um Aníbal Machado, entre tantos
outros.
Cada
vez que nasce um grande prosador, nasce de novo a linguagem. Com ele começa uma
nova tradição. Assim, a prosa tende a confundir-se com a poesia, a ser ela
mesma poesia. (Octavio Paz)[22]
Nossa
hipótese, finalmente, é que um lirismo represado, subterrâneo, corre fundo
nos silêncios de Graciliano, produzidos na linguagem lacônica, lacunosa, cheia
de elipses propositalmente construídas, para desafiar a participação crítica
do leitor.
Seco,
porém vivo (‘vivente’), o estilo enxuto e resistente da prosa poética de Infância
vem marcado de asperezas, cactáceas espinhentas, dureza de martelo, retidão
sem doçura, surra de cinta, palmatória, cocorotes, insultos
(‘bezerro-encourado’, ‘cabra-cega’, ‘meu besta’) —
mas
“sem nenhuma chantagem sentimental ou estilística”, conforme aponta Antonio
Candido. A comoção corre mais
funda, no quase “silêncio”.
Prova
que não é preciso dizer tudo, seu lirismo atém-se ao essencial, na escassez.
Uma escassez que revela o essencial, o que deve ser priorizado, nesse mundo sem
flores, sem frutos, sem verduras. A preposição sem,
marcante signo da ausência, aparece nas descrições.
Entre
outros aspectos, a miniaturização também caracteriza o lírico e o universo
infantil, bem como o acúmulo de fragmentos: o ser miúdo, a “insignificância”,
“miudezas”, “miuçalhas”, “arranjo de ninharias” (“Manhã”),
“homens e mulheres da altura de um polegar de criança” (“José da
Luz”), insetos, lagartixas (“Samuel Smiles”). “Miúdo, insignificante, tão
insignificante e miúdo como as aranhas que trabalhavam na telha negra” (“Um
cinturão”).
Há
presença forte de traços estilísticos líricos na narrativa autobiográfica
impregnada de recursos ficcionais. Ainda que uma crítica eminente negue o
lirismo na obra de Graciliano. Álvaro Lins, por exemplo, como se lerá num dos
primeiros artigos sobre Infância, em 1945[23].
Certamente não operamos aqui com a mesma conceituação de lírico que o crítico
ilustre, nem mesmo com a do grande poeta Murilo Mendes — para
quem Graciliano
Rejeita
qualquer lirismo.
Tachando
a flor de feroz. (“Murilograma a Graciliano Ramos”)
As
interpretações do crítico e do poeta se desmanchariam, a nosso ver, pela
simples leitura de alguns trechos, perfeitamente líricos:
Mergulhei
numa comprida manhã de inverno. O açude apojado, a roça verde, amarela e
vermelha, os caminhos estreitos mudados em riachos, ficaram-me na alma. (“Manhã”)
Para
Bachelard: as paisagens não são espetáculos para a vista, “são valores da
alma, valores psicológicos, diretos, imóveis, indestrutíveis”. O poeta
afirmava ter o mapa dos campos inscrito em sua alma. (Cf. A
poética do devaneio[24]).
“Eu,
pobre de mim, não desvendaria os segredos do céu. Preso à terra,
sensibilizar-me-ia com histórias tristes (...)” (“Os astrônomos”).
A expressão “preso à terra”
diz muito sobre o escritor materialista, que se posicionou buscando traduzir o
real mais terra a terra, homem de
pensamento, procurando manter firmemente “os pés no chão”, preso a este pela lei da gravidade, pela necessidade de sobrevivência.
Um
lirismo “estranho”, no dizer de Otto Maria Carpeaux. Lirismo de seiva de
mandacaru: planta que resiste à seca, nutrindo animais e, em alguns casos, até
gente faminta, que insiste
Um
lirismo de resistência; de negação de uma realidade injusta e opressiva[26].
Um poético represado na forma, mas que prossegue agindo
O
estilo vim, vi, venci, próprio da
militância. Com a energia de um panfleto, sem a forma de um panfleto. O estilo
“de notas ou diário”, analisado por Rolando Morel Pinto[27],
que traz “frases curtas enfileiradas num ritmo próximo ao do verso livre”.
“Às vezes este tipo de construção revela um rasgo psicológico de quem
precisa dizer muito, em espaço mínimo de tempo.” A lentidão, apontada por
Antonio Candido na elaboração dessa escrita, serviu para constituir a eficácia
do estilo denso, cortante.
*
* *
Para
Bachelard, em A poética do espaço[28]:
a casa é o “nosso primeiro universo. É um verdadeiro cosmos” (p.24).
“Reconfortamo-nos ao reviver lembranças de proteção” (p.25); “a casa é
uma das maiores (forças) de integração para os pensamentos, as lembranças e
os sonhos do homem” (p.26). “Antes de ser ‘jogado no mundo’ (...) o
homem é colocado no berço da casa” (p.26). Por isso, “a casa da lembrança
torna-se psicologicamente complexa” (p. 33).
Mas
como é a casa de Graciliano? O berço —
vem
associado a túmulo. Há, por baixo, a citação trágica do berço-túmulo.
Na caracterização do espaço, sempre disfórica, o lar da infância
afigura-se “triste”, ermo, às vezes lhe lembra “ruínas mal-assombradas e
cemitérios”.(...) “a sala, de janelas
sempre fechadas,”(...) No corredor desembocavam camarinhas cheias de treva e a sala de jantar. A cozinha
desapareceu, mas o quintal subsiste, duro
e nu, sem flores, sem verdura, tendo por único adorno, ao fundo, junto a montes
de lixo, um pé de turco, ótimo para a gente se esconder nas perseguições.”
(“Nuvens”, § 16)
Na
caracterização negativa do simbólico quintal da infância, (assim como na
paisagem de terra arrasada em Vidas secas) — a
vida, o querido pé de turco —
afirma-se
na adversidade: “ótimo para a gente se esconder nas perseguições”. O adjetivo “ótimo”,
em grau superlativo, é atribuído por um eu que se insere numa
comunidade de fugitivos. Eis um trecho
tensionado pelo símbolo: o pé de turco, solitário e sem folhas, representa
para o menino refúgio, proteção, único esconderijo no quintal da casa.
No
estilo “hostil aos enfeites”[29],
o adjetivo garimpado aparece para reluzir ou ferir como lâmina; nessa prosa
“substantiva”, os adjetivos são portanto imprescindíveis caracterizadores,
participam da mimese realista, captam traços essenciais, estilizam. Há “um
valor intelectual e afetivo do adjetivo”, conforme Rodrigues Lapa[30].
“Achava-me
num deserto. A casa
escura, triste; as pessoas tristes.
Penso com horror nesse ermo,
recordo-me de cemitérios e de ruínas
mal-assombradas.” “(...) teias de aranha”, “quartos lúgubres”,
“aprendizagem dolorosa”.
(“Um cinturão”, § 14)
O
espaço da infância é o avesso do aconchego proposto por Bachelard, do
bem-estar da intimidade, da “plenitude original da casa” (op. cit., p.27).
A casa dessa infância é comparada a um cárcere, associada a deserto, cemitério,
precisava encontrar no quintal algum “refúgio”.
O
lirismo em Infância se propõe a
partir do tema. A começar por este, sob o prisma de um sujeito — o
título já condensa o que aparece nas provas tipográficas como Impressões
da Infância.
Assim,
comentamos algumas imagens necessárias à auto-expressão, ao conhecimento do
mundo, ao auto-conhecimento, à constituição poética da sua prosa, à ação
poética e histórica do sujeito que narra, em tom de confidência, como em Memórias
do cárcere[31]:
“Comovo-me
em excesso, por natureza e por ofício, acho medonho alguém viver sem paixões.”[32]
Se
quisermos conhecer por dentro o projeto estético de Graciliano, cada uma de
suas linhas precisa ser estudada. Metáforas, antíteses, sinédoques, símiles
nem sempre estiveram no texto, por exemplo. São figuras que vão se formando.
Por que tais imagens se fizeram necessárias ao texto, à auto-expressão? O que
o autor buscaria com essas figuras?
Graciliano
condensa muito, suprime; só acrescenta para tornar a representação ainda mais
precisa, concreta, simbólica. O distanciamento crítico vai-se produzindo no
papel. No texto, através do trabalho, a emoção cristaliza-se.
Evidentemente
a mãe de Deus era ingrata e feroz. Em paga de tão puro desvelo — cólera,
destruição. (“Um incêndio”, § 12)
A
figura materna em Infância é o contrário
das águas-do-repouso da intimidade, a anti-afrodite, não receptiva, o avesso
do “princípio feminino” materno acolhedor, envolvente. Há uma mãe
ressecada, sem aconchego, angulosa, insuficiente, agressiva, como a realidade
que o romancista constrói.
A
concepção do mundo, ‘coberto de penas’, é a da paisagem de terra
esturricada, seixos, ossadas, com asperezas e pontas. Não a terra úmida fértil,
mas estéril, que expulsa o retirante e o exclui. O anti-úmido feminino, o não-calor
íntimo é sentido pela criança como rejeição. Há desdobramentos dessa
imagem: na imagem de Nossa Senhora, ‘ingrata e feroz’, de “Um incêndio”;
a professora Maria do Ó (a santa grávida) — cujo
nome santo é atribuído à mestra odiosa, terrível. Ocorreria mesmo uma
profanação da idéia de mãe santificada, clemente.
Diz
Bachelard: “A graça de uma curva é um convite para habitar”[33].
Mas Graciliano, na construção desse mundo trágico, de realidade social hostil
— repete
a relação conflituosa com a mãe, em criança; os choques continuam: com os
pais, com a escola, com a sociedade, com a delegacia de ordem política e
social.
São
notáveis os oxímoros empregados por Graciliano, que parecem reforçar as
contradições no planeta. Por exemplo, em “O fim do mundo”, quer soltar-se
da mãe que o “aflige” com “carícias
ásperas”; recebe, também dela, na mesma ocasião, “descomposturas enérgicas lançadas em tom amável” (§ 14). “No solo
movediço, achávamos firmeza”,
escreve em “Pe. João Inácio”.
Abandono
e rejeição já aparecem no primeiro texto publicado, escrito aos onze anos,
poema em prosa, “Pequeno mendigo”:
Oh!
Não ter um seio de mãe para afogar o
pranto que existe no seu coração!
Pobre
pequeno mendigo!
Quantas
noites não passara dormindo pelas calçadas exposto
ao frio e à chuva, sem o abrigo
do teto!
Quantas
vergonhas não passara quando, ao
estender a pequenina mão, só recebia a
indiferença e o motejo![34]
O
contato corporal é fonte de dor, humilhação, fonte de desconforto. No convívio
familiar, os pais quase que só manifestam hostilidade, agentes da rejeição.
Meu
pai tinha sido um violento padrasto. Minha mãe parecia odiar-me, o que me
impelia a escrever um livro sobre a bárbara educação nordestina. (Memórias
do Cárcere[35])
Mas,
na biografia que escreve do irmão Graciliano, em 1979, Marili Ramos declara não
ter sentido tamanha brutalidade na mãe real:
A
imaginação trabalhou, e ele, demasiado sensível, aproveitando cenas reais,
idealizou pormenores que as tornaram cruéis e assim sofreu realmente aquilo que
para todos os que o cercavam não existiu.[37]
[1]
RENAN, E. Souvenirs d’enfance et de
jeunesse. Calmann-Lévy. Apud
GUSDORF, G. “Conditions et limites de l’autobiographie”. In:
LEJEUNE, P. L’autobiographie en
France.
[2]
MIGUEL-PEREIRA, Lúcia. “Memórias do cárcere”. A
União. João Pessoa, 1954.
[3]
Idem, ibidem.
[4]
“Visão de Graciliano Ramos”. In:
GARBUGLIO, J.C. et alii. Graciliano
Ramos.
São Paulo: Ática, 1987.
[5]
“Style
est la poésie dans la prose”.
ALAIN.
“Avec Balzac”. In:_.
Les
arts et les dieux.
[6]
CARPEAUX, O. M. “Graciliano e seu intérprete”. Teresa
(Revista de Literatura Brasileira) n. 2. São Paulo, FFLCH-USP, 2001. [O silêncio,
aqui, como culminância da linguagem.]
[7]
“Visão de Graciliano Ramos”. Op. cit.
[8]
CAILLOIS, Roger e LAMBERT, J.-C. Préface. Trésor
de la poésie universelle.
[9]
RAMOS, Graciliano. “Porão”. In:_. Linhas tortas. São Paulo: Martins, 1962.
[10]
MILLIET, S. “Notas de leitura”. Diário crítico.
Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 21 out. 1945.
[11]
“(...) o espaço diminui, a memória avulta”, Graciliano Ramos apud
REIS, Zenir Campos. “Memórias do cárcere: compreender, resistir”. Folha
de São Paulo. São Paulo, 28 jul. 1984. Folhetim.
[12]
RAMOS, G. São Bernardo. 4ª ed..
Rio de Janeiro: José Olympio, 1952. [1ª ed. 1934.]
[13]
1ª Parte, Viagens, Cap. 5, p.36-37.
[14]
[Francisco de Sá de Miranda (1481-1558)] Variante: Ed. organizada por José
Pereira Tavares. Porto: Livraria Chardron, s.d., p.124.
[15]
“Os sapateiros da literatura”. In: _. Linhas tortas. São Paulo: Martins, 1962.
[16]
CANDIDO, Antonio. “Os bichos do subterrâneo”. Op.
cit., p.101.
[17]
“Conseguiríamos (...) ferir os nossos inimigos com as suas próprias
armas. Usaríamos até a linguagem correta, instrumento que eles de ordinário
não utilizam. A sintaxe é também arma, não lhe parece?”, Carta a Haroldo
Bruno. In: BRUNO, Haroldo. Estudos de literatura brasileira. Rio de Janeiro: Ed. O Cruzeiro,
1957, p.98-99. E também no capítulo
“Leitura”, é recorrente o motivo das “armas terríveis” —
a escrita.
[18]
CALVINO, Italo. Seis propostas para o
próximo milênio. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Cia. das Letras, 1995,
p.64.
[19]
Para Italo Calvino, o dinamismo e a leveza de Hermes só são obtidos com a
lentidão e a habilidade do trabalho de Hefesto. CALVINO,
I., op. cit.
[20]
RAMOS, Graciliano. “Norte e sul”. In:_. Linhas tortas. São Paulo: Martins, 1962.
[21]
“O romance de Jorge Amado”. In: _. Linhas
tortas, ed. cit.
[22]
PAZ, Octavio. Verso e prosa. Em: _. Signos
[23] LINS, Álvaro. “Infância de um romancista”. In: Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 7 set. 1945.
[24]
São Paulo: Martins Fontes, 1990,
p.100.
[25]
Linhas tortas. São Paulo: Martins, 1962.
[26]
“(...) a formação lírica é sempre, também, a expressão subjetiva de
um antagonismo social.” ADORNO,T.W. “Lírica e sociedade”. In:
Os pensadores. São Paulo: Abril
Cultural, 1980, p.199.
[27]
PINTO, Rolando Morel. Graciliano
Ramos: autor e ator. Assis:
FFCL, 1962.
[28]
BACHELARD, Gaston. A
poética do espaço.
Trad.
Antonio de Padua Danesi. São
Paulo: Martins Fontes, 1988.
[29]
(como
o avô artífice e cantor de “Manhã”).
[30]
LAPA, M. Rodrigues. Op.
cit. , p.138.
[31]
Num certo sentido, Memórias do cárcere
pode ser lido como continuidade, em relação a Infância.
[32]
2ª parte, Pavilhão dos Primários, Cap. 4. 3ª ed.,
1954, p.37.
[33]
A poética do espaço. Op.
cit., p.154.
[34]
O Dilúculo. Viçosa, Internato
Alagoano, 24 jun.1904. In: SANT’ANA, Moacir M. Graciliano Ramos: vida e obra. Maceió, SECOM, 1992.
[35]
Op. cit., Terceira Parte, Colônia Correcional, cap. 34. Apud
PUCCINELLI, Lamberto. Graciliano
Ramos/relações entre a ficção e a realidade.
São Paulo: Quíron/INL, 1975, p.107.
[36]
RAMOS, Clara.”Elementos de biografia”. In: GARBUGLIO, J.C. et alii. Graciliano
Ramos. São Paulo: Ática,
1987, p.322. Col. ‘Escritores
Brasileiros’.
[37]
RAMOS, Marili. Graciliano Ramos.
Maceió [Imprensa Gráfica Alagoana] 1979, p.61.