GUIA DE LEITURA DE FICCIONES, DE JORGE LUIS BORGES
NOTAS
PIERRE MENARD, AUTOR DEL QUIJOTE
A Silvina Ocampo (p. 444)
Ocampo, Silvina (1906-1993). Escritora argentina. Realizou estudos de pintura com Giorgio de Chirico e esteve vinculada ao mundo literário através de sua irmã Victoria Ocampo e de seu marido Adolfo Bioy Casares. Autora de um livro de contos não reivindicado Viaje olvidado (1937). Logo cultivou uma poesia próxima às formas do classicismo: Enumeración de la patria (1942), Espacios métricos (1945), Poemas de amor desesperado (1949) e Los nombres (1953). Retornou à poesia em 1962 com Lo amargo por dulce e em 1972 com Amarillo celeste. Em seus livros de relatos penetra na literatura fantástica (fantasmas, monstros) misturando humor negro e observações irônicas sobre os costumes das pessoas comuns: Autobiografía de Irene (1948, contos), La furia (1959, contos), Las invitadas (1961, contos) e muitos outros livros que lhe garantem um lugar de destaque na literatura argentina do século XX. Em colaboração com Adolfo Bioy Casares publicou em 1946 o romance policial Los que aman, odian. Junto a J. P. Wilcock publicou Los traidores (1956, teatro). Com Bioy e Borges publicou antologias da literatura fantástica e da poesia argentina.
Son, por lo tanto, imperdonables las omisiones y adiciones perpetradas por Madame Henri Bachelier en un catálogo falaz que cierto diario cuya tendencia protestante no es un secreto ha tenido la desconsideración de inferir a sus deplorables lectores - si bien éstos son pocos y calvinistas, cuando no masones y circuncisos. (p. 444)
Calvinismo. Teologia cristã do reformador da Igreja Jean Calvin (conhecido em português como Calvino). O trabalho de Calvino Instituições da Religião Cristã (1536; Institution chrétienne) foi o que teve maior influência no desenvolvimento das igrejas protestantes da tradição reformada. A doutrina se baseia na tradição teológica paulina e augustina. Dentro dos seus dogmas mais importantes se inclui a crença na soberania absoluta de Deus e a doutrina da justificação somente por meio da fé.
La condesa de Bagnoregio, uno de los espíritus más fínos del principado de Mónaco (y ahora de Pittsburg, Pennsylvania, después de su reciente boda con el filántropo internacional Simón Kautzsch, tan calumniado ¡ay! por las víctimas de sus desinteresadas maniobras),... (p. 444)
Mônaco. Pequeno principado independente da Europa, localizado em um enclave ao sudoeste da França; limita-se ao sul com o mar Mediterrâneo e está rodeado ao norte, leste e oeste pelo departamento francês dos Alpes-Marítimos.
Pittsburgh. Cidade do estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Pittsburgh é a segunda maior cidade da Pensilvânia, seu principal centro financeiro e de transportes, e o porto fluvial interior mais ativo dos Estados Unidos.
c) Una monografía sobre "ciertas conexiones o afinidades" del pensamiento de Descartes, de Leibniz y de John Wilkins (Nîmes,1903). (p. 444)
Descartes, René (1596-1650). Filósofo, matemático e físico francês, nascido em La Haye (Turena, em francês Touraine), conhecido como o pai da filosofia moderna. Sua teoria da dúvida metódica e o conhecimento da própria existência por meio do pensamento são os pontos centrais do seu Discurso do método (1637; Discours de la méthode), que constitui o pilar central de sua contribuição no campo da especulação filosófica. Criou a geometria analítica e descobriu os fundamentos da ótica moderna. Faleceu em Estocolmo, quando se encontrava a serviço da rainha Cristina.
Leibniz, Gottfried Wilhelm (1646-1716). Também conhecido como barão Gottfried Wilhelm von Leibniz. Filósofo, matemático e estadista alemão, considerado um dos maiores intelectuais do século XVII. Criador do cálculo infinitesimal e do sistema filosófico das mônadas; escreveu, entre outras obras, Hypothesis Physica Nova, 1671 ("New Physical Hypothesis"), Princípios de Teodicéia (Théodicée), A Monadologia (1714; La Monadologie; publicado em latim como Principia Philosophiae, 1721), e Novos ensaios sobre o entendimento humano (1703; pub. 1765), que é uma resposta a Locke. Ele critica o empirismo de Locke (nada existe na mente que não tenha estado nos sentidos) e defende, como Descartes, um inatismo. Ele localiza qualidades inatas na alma, como o ser , o uno, o idêntico, a causa, a percepção e o raciocínio. Leibniz retoma Platão, e sua teoria de reminiscência das idéias, dizendo que a alma reconhece virtualmente tudo. Alguns de seus livros influenciaram muito os filósofos alemães do século XVIII, incluindo a Christian von Wolff e Immanuel Kant. Leibniz foi considerado um gênio universal por seus contemporâneos. Sua obra aborda não só problemas matemáticos e filosofia, mas também teologia, direito, diplomacia, política, história, filologia e física.
Wilkins, John (1614-1672). Bispo inglês, estudioso da ciência e um dos fundadores da Real Sociedade de Londres. Em 1668 publicou An Essay towards a Real Character and a Philosophical Language, onde desenvolve a possibilidade de um idioma universal sustentado na divisão da realidade em categorias arbitrárias e no que cada vocábulo se define.
f) Una monografía sobre el Ars Magna Generalis de Ramón Lull (Nîmes, 1906). (p. 445)
Lull, Ramón (Lulio, Raimundo) (1235-1315). Teólogo e filósofo catalão, nascido em Mallorca, autor de Ars Magna Generalis, original livro da escolástica em que propõe uma máquina de pensar que funciona mediante as possibilidades combinatórias de discos concêntricos. Escreveu também obras de caráter novelesco, enciclopédico e cavalheiresco. Profundo conhecedor do árabe, tratou de divulgar o cristianismo em Túnez e Bougie, onde foi preso e acabou morrendo apedrejado.
g) Una traducción con prólogo y notas del Libro de la invención liberal y arte del juego del axedrez de Ruy López de Segura (París, 1907). (p. 445)
López de Segura, Ruy. No final do século XVI começaram a organizar-se as primeiras competições de xadrez, destacando-se o espanhol Ruy López de Segura, considerado o inventor da famosa "apertura española".
h) Los borradores de una monografia sobre la lógica simbólica de George Boole. (p. 445)
Boole, George (1819-1864). Matemático e pensador inglês. Um dos iniciadores do estudo da lógica simbólica; autor de An Investigation of the law of thought (1854), sua álgebra foi chamada de álgebra booleana.
i) Un examen de las leyes métricas esenciales de la prosa francesa, ilustrado con ejemplos de Saint-Simon (Revue des Langues Romanes, Montpellier, octubre de 1909). (p. 445)
Saint-Simon, Louis de Rouvroy, duque de (1675-1755). Memorialista do século de Luis XIV e um dos maiores prosadores da literatura francesa. Depoimento de 25 anos de história, com o dom de narrar e de evocar, produziu em suas Memórias (Mémoires) uma obra magistral (edição princeps, de 1879-1923, en 41v.)
Montpellier. Cidade situada ao sul da França, capital do departamento de Hérault, próxima do mar Mediterrâneo. Centro comercial e manufatureiro cujos produtos se destacam os químicos, têxteis e alimentos processados.
o) Una trasposición en alejandrinos del Cimetière marin de Paul Valéry (N. R. F., enero de 1928). (p. 445)
Valéry, Paul (1871-1945). Escritor francês, nascido em Sète, autor de poemas de forma clássica que expressam suas inquietudes intelectuais mediante sutis símbolos. La Jeune Parque (1917), pequeno volume de versos, é logo apontado como uma das maiores obras da poesia contemporânea. Em sua obra prima Cemitério marinho (1920; Le Cimetière marin), poetiza suas preocupações com o problema do ser e da consciência, sublinhando o conflito entre a inteligência e a sensibilidade, fonte suprema de angústia. Suas meditações e anotações à margem dos mais variados assuntos serão reunidas em Notas e digressões (1919; Notes et digressions), Encantos (1922; Charmes), Eupalinos ou o Arquiteto (1923; Eupalinos ou LArchitecte), A Alma e a dança (1924; LÂme et la danse), Variedades (1924; Variétés). Em seu breve ensaio "Valéry como símbolo" (Otras inquisiciones, 1952), Borges sustenta que "Valéry ilustremente personifica los laberintos del espíritu" e deixa, ao morrer, "el símbolo de un hombre infinitamente sensible a todo hecho y para el cual todo hecho es un estímulo que puede suscitar una infinita serie de pensamientos". Em 1932 Borges escreveu o prólogo de uma edição de Cemitério marinho.
q) Una "definición" de la condesa de Bagnoregio, en el "victorioso volumen"la locución es de otro colaborador, Gabriele d'Annunzio que anualmente publica esta dama para rectificar los inevitables falseos del periodismo y presentar "al mundo y a Italia" una auténtica efigie de su persona, tan expuesta (en razón misma de su belleza y de su actuación) a interpretaciones erróneas o apresuradas. (p. 445)
DAnnunzio, Gabriele (1863-1938). Poeta, romancista, dramaturgo e musicólogo italiano. Seus livros tiveram êxito nas últimas décadas do século XIX. Pertenceu à escola simbolista, sendo intérprete das paixões e das sensações raras. Tornou-se adepto do fascismo. Autor de Canto Novo (1882), um volume de poemas sobre os gozos que a vida oferece, Terra vergine, Città morta, Gioconda (1898), L'innocente (1892), Il trionfo della morte (1894), Le vergini delle rocce (1896).
Dos textos de valor desigual inspiraron la empresa. Uno es aquel fragmento filológico de Novalisel que lleva el número 2005 en la edición de Dresdenque esboza el tema de la total identificación con un autor determinado. (p. 446)
Novalis, pseudônimo de Friedrich Leopold von Hardenberg (1772-1801). Poeta alemão, um dos escritores que formulou a teoria do romanticismo literário na revista Das Athenaeum. É famoso por suas poesias líricas e por sua prosa, caracterizadas por um profundo misticismo religioso. Autor de uma reduzida obra poética, realizada em seus últimos anos de vida e em recordação da sua amada, porém de uma beleza tão sublime que influenciou muitos outros escritores: Hinos à noite (1800; Hymnen an die Nacht) e Cancões espirituais (1799; Die Christenheit oder Europa). No romance inacabado Heinrich von Ofterdingen (publicado postumamente em 1802) criou o símbolo da flor azul (Die blaue Blume), que representava o segredo da arte e o desejo do herói de fazer do mundo, um lugar de beleza através do poder da imaginação criativa. Novalis escreveu também ensaios em que expressava sua nostalgia pela suposta unidade da Europa cristã medieval, Die Christenheit oder Europa (1799), Canções sacras (1799; Geistliche Lieder).
Más interesante, aunque de ejecución contradictoria y superficial, le parecía el famoso propósito de Daudet: conjugar en una figura, que es Tartarín, al Ingenioso Hidalgo y a su escudero... Quienes han insinuado que Menard dedicó su vida a escribir un Quijote contemporáneo, calumnian su clara memoria. (p. 446)
Daudet, Alphonse (1840-1897). Escritor francês, conhecido por seus relatos sobre sua Provença natal. Nasceu em Nîmes e se mudou para Paris, onde publicou um volume de poesia intitulado Os Namorados (1858; Les Amoureuses). Por volta de 1861 começou a colaborar com o periódico Le Figaro. Daudet é conhecido por todos por suas evocações naturalistas e humorísticas da vida provençal, reunidas em Cartas de meu moinho (1869; Lettres de mon moulin), que apareceu pela primeira vez em Le Figaro em 1866, e por seus relatos sobre Tartarin, um divertido pícaro de Provença. Entre estes últimos figuram Tartarin de Tarascon (1872; Les Aventures prodigieuses de Tartarin de Tarascon), Tartarin dos Alpes (1885) e Port Tarascón (1890).
Su admirable ambición era producir unas páginas que coincidieran palabra por palabra y línea por línea con las de Miguel de Cervantes. (p. 446)
Cervantes Saavedra, Miguel de (1547-1616). Figura máxima das letras espanholas, Miguel de Cervantes Saavedra nasceu em Alcalá de Henares em 1547. Serviu militarmente em 1570, e no ano seguinte participou na batalha de Lepanto, em que foi ferido na mão esquerda. Conheceu o cárcere em várias oportunidades por questões de dívidas e uma acusação de homicídio, esteve aprisionado em Argel, em poder dos turcos. Cultivou todos os gêneros narrativos da sua época, com numerosas obras (La Galatea, Novelas Ejemplares, Los trabajos de Persiles y Sigismunda, etc.), dentre as quais se destaca seu famoso libro El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha, publicado em 1605 e completado com uma segunda parte em 1615, depois de uma versão apócrifa de Alonso Fernández de Avellaneda, de 1614. Borges, para quem Cervantes e sua obra constituiu uma inesgotável fonte de inspiração afirmou em "Magias parciales del Quijote" (Otras Inquisiciones, 1952) que o escritor espanhol, ao não poder recorrer à talismãs ou a superstições, insinuou o sobrenatural de um modo sutil e mais eficaz. Neste texto, que é um de seus mais famosos, atribui uma nova autoria ao Quixote e interpreta as divergências inexistentes entre as versões idênticas de Cervantes e Pierre Menard, apócrifo autor do mesmo e distinto Quixote.
"Mi propósito es meramente asombroso" me escribió el 30 de setiembre de 1934 desde Bayonne. "El término final de una demostración teológica o metafísicael mundo externo, Dios, la casualidad, las formas universalesno es menos anterior y común que mi divulgada novela. (p. 446)
Bayona. Em francês, Bayonne. Cidade do sudoeste da França, no departamento dos Pirineus Atlânticos, porto na confluência dos rios Nive e Adour, perto do golfo de Viscáia.
Esa conjunción eficaz de un adjetivo moral y otro físico me trajo a la memoria un verso de Shakespeare, que discutimos una tarde... (p. 447)
Shakespeare, William (1564-1616)
Esa preferencia, en un español, no hubiera sido inexplicable; pero sin duda lo es en un simbolista de Nîmes, devoto esencialmente de Poe, que engendró a Baudelaire, que engendró a Mallarmé, que engendró a Valéry, que engendró a Edmond Teste. (p. 447)
Poe, Edgar Allan (1809-1849). Escritor norte-americano, nascido em Boston, autor de contos fantásticos de atmosfera sinistra, ensaios de crítica literária e poesia. É considerado o criador do gênero policial por seus relatos de raciocínio que têm pelo detetive, o personagem C. Auguste Dupin. Em seu ensaio "A filosofia da composição" nega a inspiração e afirma que a criação estética é um produto do intelecto; acusado de imitar em seus contos de terror aos românticos alemães, respondeu que "o horror não chega da Alemanha, chega da alma". Fatigado por suas neuroses e pelo alcoolismo, morreu em uma sala comum do hospital de Baltimore. Entre seus poemas, alguns universalmente conhecidos e traduzidos em vários idiomas, salientam-se "O Corvo" ("The Raven"), "Os Sinos" ("The Bells"), "Annabel Lee", "Lenore". E entre suas obras-primas da ficção estão "A Queda da casa de Usher" ("The Fall of the house of Usher"), "Os Assassinatos da rua Morgue" ("The Murders in the rue Morgue"), "O Escaravelho de ouro" ("The Gold bug"), e "O Gato preto" ("The Black cat"). Borges, que ensaiou relatos detetivescos cuja remota origem genérica é o conto "Os Assassinatos da rua Morgue" (1841) de Poe, prologou obras deste para sua coleção "Biblioteca Pessoal" e publicou em 2 de outubro de 1949 um ensaio em La Nación ("Edgar Allan Poe"), onde escreve: "Espejo de las arduas escuelas que ejercen el arte solitario y no quieren ser la voz de los muchos, padre de Baudelaire, que engendró a Mallarmé, que engendró a Valéry, Poe indisolublemente pertenece a la historia de las letras occidentales, que no se comprenden sin él."
Baudelaire, Charles (1821-1867). Poeta e crítico francês, que abre a via à poesia moderna. A principal obra de Baudelaire foi uma compilação de poemas que leva por título As flores do mal (1857; Les Fleurs du mal). Imediatamente depois da sua publicação, o governo francês acusou Baudelaire de atentar contra a moral pública. Apesar de que a elite literária francesa saiu em defesa do poeta, Baudelaire foi multado e seis dos poemas contidos neste livro foram eliminados nas edições posteriores. A censura não se levantou até 1949. Sua obra seguinte, Os paraísos artificiais (1860; Les Paradis artificiels), é um estudo auto-analítico baseado nas suas próprias experiências e inspirado em Confissões de um fumador de ópio inglês, do escritor britânico Thomas De Quincey. Morreu em 31 de agosto.
Mallarmé, Stéphane (1842-1898). Poeta francês que figura entre os iniciadores do simbolismo junto com Verlaine, e um dos grandes mestres da lírica contemporânea. Nasceu em Paris e estudou o secundário em Sens. Utilizou os símbolos para expressar a verdade através da sugestão, mais que da narração. Na sua primeira fase, ainda sob a influência de Baudelaire, escreveu poemas como Soupir e Brise marine; na segunda, mais simbolista e bem acabada, escreveu Hérodiade (1864) e L'Après-midi d'un faune (1865), entre outros, e desenvolveu em prosa suas teorias estéticas; na terceira fase, surge sua obra mais radical, o poema Un Coup de dés, de influência fundamental sobre a literatura contemporânea.
Edmond Teste. É um personagem imaginário, sábio e homem das letras, cuja imagem vai se construindo a partir de vários ângulos. Teste poderia ser considerado como o super ego de Valéry. O livro, Monsieur Teste, se compõe de nove textos concentrados na figura de Edmond Teste.
Esa preferencia, en un español, no hubiera sido inexplicable; pero sin duda lo es en un simbolista de Nîmes,... (p. 447)
Nîmes. Cidade do sul da França, capital de Gard, situada em uma planície da região de Cevenas. É um centro agrícola e industrial especializado em produtos têxteis, alimentícios, elaboração de conhaque, calçado, máquinas e produtos químicos. Sua fama se deve aos numerosos vestígios da época romana que ainda conserva em bom estado, entre eles o anfiteatro.
A pesar de esos tres obstáculos, el fragmentario Quijote de Menard es más sutil que el de Cervantes. Éste, de un modo burdo, opone a las ficciones caballerescas la pobre realidad provinciana de su país; Menard elige como "realidad" la tierra de Carmen durante el siglo de Lepanto y de Lope. (p. 448)
Lepanto, Batalha de. Depois da Paz de Cateau-Cambrésis (1559), Felipe II orientou sua política internacional à liquidação do conflito que a Espanha mantinha com os turcos otomanos. A partir de 1560, iniciou uma série de ações no Mediterrâneo, entre elas o enfrentamento naval no golfo de Lepanto, no dia 7 de outubro de 1571, foi o momento mais decisivo e brilhante. Cervantes participou na batalha de Lepanto, onde foi ferido na mão esquerda.
Vega, Lope de (1562-1635). Poeta, romancista e o maior dramaturgo espanhol, conhecido como o Fénix de los ingenios. Seu nome completo era Lope Félix de Vega y Carpio. É uma das mais extraordinárias figuras do Século de Ouro. A fecundidade literária de Lope de Vega é impressionante; cultivou todos os gêneros vigentes em seu tempo, dando, além disso, forma à comédia. Escreveu umas 1.500 obras teatrais, muitas delas perdidas, entre as que se encontram autênticas jóias da literatura universal. Suas principais obras são: La Dorotea (1632 - grande obra narrativa em que um Lope septuagenário rememora seus amores quase adolescentes com Elena Osorio e cuja estrutura é de La Celestina uma clara homenagem a Fernando de Rojas), Peribañez, Fuenteovejuna, El Caballero de Olmedo (teatro).
¡Qué españoladas no habría aconsejado esa elección a Maurice Barrès o al doctor Rodríguez Larreta! Menard, con toda naturalidad, las elude. En su obra no hay gitanerías ni conquistadores ni místicos ni Felipe II ni autos de fe. (p. 448)
Barrès, Auguste Maurice (1862-1923). Romancista e político francês, nascido em Charmes. Foi membro da Câmara dos Deputados a partir de 1889. Seus primeiros escritos são principalmente introspectivos, porém sua obra posterior reflete um nacionalismo crescente e o desejo de proteger os interesses da França frente ao abuso dos países vizinhos. Sua obra influenciou notavelmente escritores franceses como André Gide e André Malraux. Entre seus numerosos romances se destacam as trilogias Culto do eu (1888-1891; Le Culte du moi), O romance da energia nacional (1897-1902; Le Roman de l'énergie nationale) e A colina inspirada (1913; La Colline inspirée). E também outros como Sous l'oeil des Barbares (1888), Um Homem livre (1889), e Le Jardin de Bérénice (1891).
¡Pero que el Don Quijote de Pierre Menardhombre contemporáneo de La trahison des clercs y de Bertrand Russellreincida en esas nebulosas sofisterías! (p. 448)
Russell, Bertrand (1872-1970)
Larreta, Enrique Rodríguez (1875-1961). Romancista argentino, nascido em Buenos Aires, autor de La gloria de Don Ramiro, Zogoibi, En la Pampa, etc. Sua prosa casta, de grande riqueza léxica e abundante em expressões espanholas nunca interessou a Borges, que preferia "não falar dela a falar mal dela". Algumas frases de Larreta foram utilizadas burlescamente por Borges e Bioy Casares em Seis problemas para don Isidro Parodi, livro em que aparece refletido no personagem de Gervasio Montenegro.
Felipe II (1527-1598). Rei de Espanha (1556-1598). Herdeiro do imperador Carlos V (Carlos I da Espanha), governou o vastíssimo império integrado por Castilha, Aragão, Valência, Catalunha e Navarra; o Roussillon, o Franco Condado, os Países Baixos, Sicília, Cerdenha, Milão, Nápoles, diversos lugares norte-africanos (Orán, Túnez), Portugal e seu império afro-asiático, toda a América descoberta e as Filipinas.
Cervantes era un viejo militar: su fallo se explica. Madame Bachelier ha visto en ellas una admirable y típica subordinación del autor a la psicología del héroe; otros (nada perspicazmente) una transcripción del Quijote; la baronesa de Bacourt, la influencia de Nietzsche. (p. 448)
Nietzsche, Friedrich (1844-1900). Filósofo alemão, cuja apologia do super-homem e da vontade de poder haveria influenciado os fascismos contemporâneos. Era, entretanto, adversário fervoroso do nacionalismo alemão e do anti-semitismo. O seu primeiro trabalho, que, ligado a uma excepcional reflexão crítica, oferece o seu mais puro lirismo poético é O Nascimento da tragédia pelo espírito da música (1872; Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste de Musik). Em 1883-85, já afastado, por motivo de doença, da universidade e vivendo de uma pequena pensão, escreveu sua obra prima: Assim falou Zaratustra (Also sprach Zarathustra). Em seguida a esta escreveu Além do bem e do mal (1886; Jenseits von Gut und Böse) e Genealogia da moral (1887; Genealogie der Moral). O caráter dessas obras é humanístico-filosófico. A sua última obra, de publicação póstuma, é A Vontade de poder (1901; Der Wille zur Macht). Nietzsche morreu louco.
La historia, madre de la verdad; la idea es asombrosa. Menard, contemporáneo de William James, no define la historia como una indagación de la realidad sino como su origen. (p. 449)
James, William (1842-1910). Filósofo norte-americano, irmão do romancista Henry James e fundador da escola filosófica pragmática, para a qual a concepção da realidade depende dos efeitos práticos que tem, e as idéias somente são consideradas em relação a outros aspectos práticos da experiência. James aplicou o pragmatismo à psicologia, à religião e a história. Suas obras mais importantes são Variedades da experiência religiosa (1898; The Varieties of Religious Experience), Princípios da psicologia (1891; The Principles of Psychology) Um universo pluralista (1909; A Pluralistic Universe) e Alguns problemas de filosofia (Some Problems of Philosophy). Macedônio Fernández manteve correspondência com ele.
Esa técnica puebla de aventura los libros más calmosos. Atribuir a Louis Ferdinand Céline o a James Joyce la Imitación de Cristo ¿no es una suficiente renovación de esos tenues avisos espirituales? (p. 450)
Céline, Louis-Ferdinand, seudónimo de Louis Ferdinand Destouches (1894-1961). Romancista e médico francês. Nascido em Courbevoie, perto de Paris, participou como voluntário na I Guerra Mundial, em que foi gravemente ferido. Seu primeiro romance, Viagem ao fim da noite (1932; Voyage au bout de la nuit), foi acolhido como um grande acontecimento literário e exerceria uma profunda influência em numerosos escritores das gerações seguintes. Morte a crédito (1936; Mort à crédit) confirmou a importância de sua escritura inovadora. Os pontos de vista exacerbados de Céline, e seus escritos anti-semitas de fim dos anos trinta, fizeram com que o acusassem de colaborar com os nazistas. Devido a isso, Céline esteve exilado na Alemanha e Dinamarca em 1944. Finalmente foi perdoado pelo governo francês, e retornou a Paris em 1950. Registra literariamente suas experiências durante o exílio no romance De um castelo a outro (1957; D'un Château l'autre), seguido de Norte (1960; Nord), e Rigodon (1969, publicada postumamente). A crítica continua considerando a Céline uma das figuras mais notáveis da literatura do século XX.
Joyce, James (1882-1941). Romancista e poeta irlandês, nascido em Dublín, cuja agudeza psicológica e inovadoras técnicas literárias expressadas em seu romance épico Ulisses (1922; Ulysses) o converteram em um dos escritores mais importantes do século XX. É um romance cuja idéia principal se baseia na Odisséia de Homero e que abrange um período de 24 horas nas vidas de Leopold Bloom e de Stephen Dedalus, e cujo clímax se produz ao encontrarem-se ambos personagens. Ulisses marcou um ponto de ruptura com o conceito tradicional de estrutura romanesca e renovou as letras contemporâneas criando uma legião de admiradores e inimigos da sua prosa cheia de neologismos, jogos verbais e atitudes iconoclastas. Seu primeiro livro, Música de Câmara (1907; Chamber Music), contém 36 poemas de amor, bastante elaborados, que refletem a influência da poesia lírica isabelina e os poetas líricos ingleses de fins do século XIX. Em sua segunda obra, um livro de 15 contos titulado Dublineses (1914; Dubliners ), narra episódios críticos da infância e da adolescência, da família e da vida pública de Dublín. Seu primeiro romance, Retrato do artista adolescente (1916; A Portrait of the Artist as a Young Man), bastante autobiográfico, recria a sua juventude e a vida familiar na história de seu protagonista, Stephen Dedalus. Nesta obra, Joyce utilizou amplamente o monólogo interior, recurso literário que plasma todos os pensamentos, sentimentos e sensações de um personagem com um realismo psicológico escrupuloso. Também desta época data sua obra de teatro Exilados (1918; Exiles). Finnegans Wake (1939), sua última e mais complexa obra, é uma tentativa de encarnar na ficção uma teoria cíclica da história.
Esa técnica de aplicación infinita nos insta a recorrer la Odisea como si fuera posterior a la Eneida y el libro Le jardin du Centaure de Madame Henri Bachelier como si fuera de Madame Henri Bachelier. (p. 450)
Odisea. Narra o retorno do herói grego Odisseu (Ulisses na tradição latina) da guerra de Tróia. Nas cenas iniciais é relatada a desordem em que ficou a casa de Odisseu após sua longa ausência. Um grupo de pretendentes de sua esposa Penélope está acabando com suas propriedades. Na continuação, a história se centra no próprio herói. O relato abarca seus dez anos de viagens, no curso dos quais enfrenta a diversos perigos, como o cíclope devorador de homens, Polifemo, e a ameaças tão sutis como a que representa a deusa Calipso, que lhe promete a imortalidade se renunciar voltar para casa. A segunda metade do poema começa com a chegada de Odisseu a sua ilha natal, Ítaca. Aqui, com muito sangue frio e uma paciência infinita, põe à prova a lealdade dos seus criados, trama e realiza uma sangrenta vingança contra os pretendentes de Penélope, e se une de novo com o seu filho, sua esposa e seu pai ancião.
Eneida. Virgílio dedicou os últimos onze anos de sua vida a compor a Eneida, uma epopéia mitológica em doze livros que relata as peripécias do herói Enéias durante sete anos, desde a queda de Tróia até sua vitória militar na Itália. O estilo da Eneida e o seu tratamento estão inspirados nas antigas epopéias gregas, a Ilíada e a Odisséia de Homero. Virgílio também se inspirou em parte no poema épico Argonautica, escrito pelo poeta grego do século III a.C. Apolônio de Rodas, assim como nos Anales do poeta romano Quinto Ennio, que foi o primeiro a introduzir o hexâmetro datílico na poesia épica latina. Virgílio introduziu na Eneida a musicalidade e a precisão técnica da sua métrica de um modo tão sutil que seu verso é considerado desde então como um modelo de perfeição literária. A Eneida é considerada geralmente como a primeira grande epopéia literária, visto que a Ilíada possui uma grande riqueza artística porém contém um grande número de recursos já usados na poesia oral anterior. A Eneida, diferente da Ilíada, não é uma parte herdada da consciência nacional, mas uma tentativa deliberada de glorificar a Roma, por encargo de Augusto, cantando a suposta origem troiana de sua gente e, em especial, os lucros e ideais de Roma sob seu novo imperador. Os elementos históricos e augustos são especialmente notórios entre os livros 5-8, a parte central do poema. A Eneida pode ser considerada uma obra universal, por sua estrutura ambiciosa, sua beleza estilística e sua preocupação pelas tribulações do indivíduo. A Eneida foi uma obra muito apreciada em sua época. Durante a Idade Média encontrou-se nela um sentido filosófico, e Virgílio foi considerado quase um vidente e um mago. Dante realiza uma homenagem a Virgílio na primeira parte da Divina Comédia, convertendo-o em guia do poeta através do Inferno e do Purgatório, até chegar às portas do Paraíso. Porém, foi a devoção de Petrarca pelo estilo virgiliano, que converteu Virgílio em uma referência constante no humanismo e no Renascimento.
Nada tienen de nuevo esas comprobaciones nihilistas; lo singular es la decisión que de ellas derivó Pierre Menard. Resolvió adelantarse a la vanidad que aguarda todas las fatigas del hombre;... (p. 450)
Nihilismo. Doutrina política e filosófica de negação da ordem social vigente e de toda forma de esteticismo. Defende o utilitarismo e o racionalismo científico.