| ano 1 | edição 1 | florianópolis, 5 de março de 2008 |
 
 
       
 
prosaicos

Talvez Alguém

Roberta Rego Rodrigues

Ela é o que é e ninguém mais o é. Fogo. Fogo. Fogo. Tridimensionalmente acesa por um vulcão que ameaça estar sempre em erupção, devido ao tumulto de emoções, só que é abafado por líquidos límpidos que não deixam de ser meros freios dos sentimentos.

Até os quatro anos, ela falava um dialeto que só sua mãe compreendia, o que não a impediu de ser a primeira da sala no pré-primário, ou seja, a alfabetizar primeiro. Mas aquele sentimento de ser grama fudida e rasteira, altamente necessitada de uma iluminação do sol, persistia.

Ela, proveniente de uma classe, digamos, média para baixa, foi estudar em escola pública, uma época muito profícua em sua vida. Lá, ela tinha coleguinhas que viviam em favelas e conviviam bem. As diferenças sociais eram claras, entretanto as crianças mostram sua pureza e malvadeza também. Ela se lembra de ter falado com uma coleguinha que morava perto da casa dela. Detalhe: essa coleguinha morava em um barraco no ‘Morro do Papagaio' e ela em um bairro consideravelmente bem conceituado. Olhando para trás, ela pensa consigo mesma: “Pô, que sacanagem eu ter feito isso!” Queria humilhá-la. Imagina, uma criança de oito anos com planos maquiavélicos.

A partir dos doze anos, ela foi estudar em colégio de freiras. Estudou lá até os dezoito anos. Aprendeu a ser mais disciplinada do que já era. Tentava tirar as melhores notas da turma. Mas de repente...

Surtou. Surtou. Surtou. Algo que nunca imaginava que iria acontecer com ela e aconteceu. E daí? Daí que ela passou a ser outra pessoa, alguém que teria que se preocupar em se policiar mais, pelo fato de ser altamente sensível.

Deixamos claro que ela não é louca de atirar pedra, mas que ela tem uns momentos beirando a loucura completa, ela tem. O pior que ela fica assim sem nenhum artifício externo. É dela. Vem de dentro dela. Ela não sabe de onde. Somente sabe que tem de se cuidar pelo resto da sua vida.

Ah, ela gostou de levar uns choquinhos. Fizeram-na ficar com um ano da sua vida totalmente apagado, mas tudo bem. Preferível isso a virar uma pedra movediça e cronificada. Os ECTs ( Electro Convulsive Therapies ) são até eficazes, mas deixam marcas para sempre. Marcas indeléveis como o preconceito, amnésia de certas lembranças e pior, dão uma dor de cabeça! Eles serviram para atenuar os pensamentos alucinatórios dela. Mas não serviram para apagar essa terrível doença.

Seja como for, ela continua vivendo porque tem sonhos que quer que sejam realizados. Muitos sequer imaginam que ela é portadora de transtorno bipolar. Logo ela que é tridimensional. Por que será? Ela nunca saberá ao certo. Ela sabe que foi feliz, ela tenta ser feliz e ela será feliz de alguma forma. Isso é o que importa.

A autora

Roberta Rego Rodrigues. Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Licenciada em língua inglesa pela UFMG, Mestre em Lingüística Aplicada pela mesma universidade em 2005. Atualmente, ministra aulas de inglês como língua estrangeira; é doutoranda em Lingüística Aplicada pela UFMG; e, eventualmente, faz trabalhos em tradução. Contato: betareseau@gmail.com.

 
       
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