| ano 1 | edição 1 | florianópolis, 5 de março de 2008 |
 
 
       
 
prosaicos

Cartas na mesa.... Cartas na manga...

Evandro de Sousa

"O coração do homem, meu caro amigo,
é um mistério indecifrável!"

GOETHE. Os sofrimentos do jovem Werther.
Carta de 04/05/71

Constituiria uma vantagem inestimável conhecermos o próximo lance de dados, a próxima carta a ser tirada, o próximo minuto de aflição, o próximo sorriso a ser encontrado.

Tudo tem lá aparência de delírio, não sou uma pessoa tão fria assim: sinto até o frio que emano!

Não há maior libertação do que aquela que consiste em não entrar no jogo, não há maior sorriso doce do que aquele que mostra o lado oculto da Gioconda, assim como não há mão mais feroz e caligrafia mais atroz que a mão de Merteuil lançada no caos.

Grandes jogos trazem grandes filosofias!

Sinto um vazio apertar meu peito, aperto contra os dentes a barra de chocolate, repito comigo: "il faut être absolutement moderne" ... é preciso ser literatura...

Certa feita, no furor do momento, descubro-me personagem nas palavras de outras pessoas. Certa feita também me descubro humano, em minhas próprias palavras. Em um momento descubro a felicidade, n'outro o vazio da solidão a que me condeno.

Não sei jogar cartas!

E lá em algum lugar chove enquanto aqui faz sol, dia de praia. Não gosto de praias. Perdi na ilusão de mim mesmo o único amigo que tinha e de acordo com este raciocínio, paro para pensar se o ideal realmente é válido.

E assim, oscilando no tempo dos segundos reais e das horas sonhadas, escrevo. E quando escrevo, as coisas tomam nome, as cartas despencam da manga para a mesa. Desmascarando meu jogo, jogo de vida, jogo de morte...

Construo um espaço com o fragmento de minhas personalidades, corto os nós, como corto os cabelos.

Once more upon the waters! Yet once more!

E contudo, sobretudo, continuo pedant , o gentleman esperado não veio (está jogando bridge com alguma dama em um quarto escuro de hotel).

As lições das cartas não têm sido fáceis.

Um valete de ouro, alguns sonhos, mãos vazias...

Um dia contarão uma história, em silêncio, de um apostador de si mesmo, enquanto sonharão com as altas torres do fim-do-mundo. Já não existem enigmas assim...

E deixo de errar em arte, de fazer com arte, de fazer arte. Jogo com os largos e nodosos dedos do acaso, nas horas do ocaso, em um mistério pelo qual não sei qual é o prêmio. No fundo tudo tem um motivo e os piores deles não se evidenciam por gargalhadas gélidas, mas por olhos profundos. Olhos de ave de rapina, de jogador matreiro que perdeu o talento. Olhos de um Ás de Copas...

Eu exasperei, e esperei, tantas cartas que as perdi e deixei de escrevê-las.

Ainda tenho notícias, como as cartas que vem, os ventos trazem, algumas vezes, 3 copas, outras um 7 de paus, mas são cartas, cartas escritas pela caligrafia dura do Destino, que insiste em dar-me cartas, esconder-me fatos.

E eu fujo, ando em círculos maiores que meu pensamento e não tenho mais esperanças de um final trágico. Toda tragédia está corroída pelas engrenagens de algum modernizador, mas, no entanto, ainda escrevo.

Porque sempre haverá cartas indecifráveis, caligrafias impossíveis de serem lidas, como o reflexo da lua em um espelho negro; como um grou que traça com as gotas de vida uma linha escarlate no céu.

E eu espero.

Embora não saiba o jogo que jogo, as regras a que ele e eu estamos submetidos, eu o jogo, e eu vivo, e espero, no final de tudo, triunfar sem ter revelado todos os meus segredos e mantido nas profundezas da manga alguma carta, chave de ouro, para o enigma de mim-mesmo.

O autor

Evandro de Sousa, 20 anos, acadêmico do curso de Letras – Português, da Universidade Federal de Santa Catarina. Contato: Ev_letras@yahoo.com.br.

 
       
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