| ano 1 | edição 1 | florianópolis, 5 de março de 2008 |
 
 
       
 
poéticos

Cena 01 – Lanterna

José Benedito Donadon-Leal

Vivo meus cinqüenta e poucos a mais de 40 graus.
Saí dessa febre poucas vezes na vida.
Essas vezes, claro, na camisa de força, a choque elétrico,
a calmante, acidulante, antioxidante
barbante no pescoço
fundo do poço antidepressivo
amigo inimigo
trinta e oito na orelha
amaciante corrosivo
fumo de corda, cogumelo
pó dos Andes, canabis,
viagem de crack
acompanhado de Freud, Jung e Lacan,
padre, curandeira, pajé e pai de santo.
Tesão mesmo só com choque, com a corrente elétrica
percorrendo a espinha de ponta a ponta.
Essa porra de discurso de analista não faz ninguém gozar.
Mas já gozei no ritmo do atabaque
na descida do santo
na boca da puta
na bunda de um gringo com Aids
no meu próprio umbigo.
Meu fim... meu começo, não sei, é respingo na minha desregração profissional.
Tudo bem que eu possa rir de todo mundo agora, sem dor de consciência.
Vejo tudo.
Sei de tudo.
Meus olhos sempre estiveram focando alguma coisa que constrói sentido.
Só não vejo...
só não sei...
de mim.

O autor

José Benedito Donadon-Leal, n atural de São João do Caiuá – PR . Poeta, ensaísta. Doutor em Semiótica e Lingüística pela USP, Pós-Doutor em Análise do Discurso pela UFMG, Mestre em Lingüística pela UFSC e Professor de Lingüística da UFOP. Contato: jbdonadon@jornalaldrava.com.br.

 
       
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