| ano 1 | edição 1 | florianópolis, 5 de março de 2008 |
 
 
       
 
intelectuais | II jornal pausa

O que nos impele

Erik Gontijo Costa

A nós, abandonados aos papéis errantes,
não é dado furtar ao próprio espírito:

– temos o cristalino silêncio do mundo a desdobrar por escrito.

Se gestos leves, dão-nos passagem os céus;
se levianos, é então a perdição dos infernos.

Precisamos atravessar o infinito com lâminas nos pés e nas mãos:

– cerrados –

os olhos com lâminas d'água não naufragam na sabedoria que os invade.

Assinaladas nossas portas à beira da noite imemorial
impelem-nos sussurros de papéis cortantes:

– esse nosso risco .

Evadimos – pés firmes sobre dupla lâmina – para
territórios agrestes, secos, seguros da morte precisa.

O que nos impele: fazer caminhar a eternidade, extirpar as horas
a fio, cegar mil sóis que nos ofuscam a vista, abrir

frisos, frestas em lugares frios, dobrar
mundos descobertos sobre si mesmos, suas falhas

nas folhas frias;
sob o jugo de nossa pena, verter

o corpo proscrito de infinitos mundos e sobrescre-
vê-lo na pele cortante de um poema.

 
       
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