| ano 1 | edição 1 | florianópolis, 5 de março de 2008 |
 
 
       
 
entrevista | II jornal pausa

Conversa entre mendigos

Entrevista com Lúcia Castelo Branco

Lúcia Castelo Branco é professora da Faculdade de Letras da UFMG e escritora. Está organizando as Obras Completas do poeta Manoel de Barros e, recentemente, dirigiu Língua de Brincar, filme baseado na obra do poeta. Nessa conversa, ela nos fala sobre sua relação com Manoel de Barros e sua obra, além de contar como foi essa experiência de transpor para a tela a poesia escrita.

Pausa: Quando e como foi o primeiro contato com Manoel de Barros?

Lúcia: Minha amizade com o poeta já se estende por vinte e cinco anos. E sempre foi, também, uma amizade “por escrito”. Ou, quem sabe, “por escrita”. É que, para minha honra e alegria, o meu primeiro ensaio publicado, antes mesmo que eu fosse professora da Letras e tivesse publicado o meu primeiro livro, foi um ensaio sobre Manoel de Barros. Chama-se “Palavra em estado de larva” e, mais tarde, foi publicado em um dos livros que fiz com a Ruth Silviano Brandão, o Literaterras. Esse ensaio sobre a poesia do Manoel saiu publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais. Na época, eu recebi, para ler, os livrinhos do Manoel, ainda editados em edições caseiras que ele mesmo bancava, quando ganhava algum prêmio literário. Mas ele já era prefaciado, por exemplo, por Antônio Houaiss. Então, eu fiquei completamente impactada com aquela poesia. E acho que esse texto, de alguma maneira, revelou o meu impacto. Porque o Manoel, depois de receber o Suplemento, me escreveu uma carta em que ele me agradecia e me dizia que muita gente veio procurar sua poesia depois que leu aquele ensaio. Isso, é claro, é parte da generosidade dele. Mas assim começamos nossa amizade “por escrito”, que mantemos até hoje. Só em 1996 fui até Campo Grande e fiquei mais de uma semana hospedada na casa do poeta. Só então o conheci pessoalmente. E hoje tenho mais de 60 cartas dele.

Pausa: Como foi essa experiência de transpor para a tela uma poesia que parece não possuir suporte e, ainda assim, suporta-se sobre o nada?

Lúcia: Então, não sei se foi assim difícil, para mim, fazer um filme que se suportasse sobre o nada. Pois o filme, de fato, tem como suporte essas cartas. E as cartas são ali mais ou menos o que o Pessoa escreve, em Mensagem, sobre o mito. Ele diz: “o mito é o nada que é tudo”. As cartas são, ali, “o nada que é tudo”. Então, o filme tem mesmo um suporte de papel. Essa sim, talvez, tenha sido a sua maior dificuldade: a de trazer o suporte de papel para a tela. Desde o início, sabíamos que esse era o desafio. Tínhamos o verso “um lápis numa península” como guia. E não queríamos, é claro, a imagem de um lápis sobre uma península... Queríamos o que essa imagem dá a ver: a escrita do poeta, aquilo que ele diz, de maneira muito natural, em uma de suas entrevistas: que, na ponta de seu lápis, tem um nascimento. Porque o que eu desejava mesmo era retirar a poesia do Manoel desse lugar um tanto regionalista em que a crítica o colocou. Queríamos a paisagem da palavra e essa paisagem, como o Manoel mesmo diz, é sem qualquer exuberância. A luta dele (e creio que a nossa, também) foi conter a exuberância do Pantanal.

Pausa: Sabemos que você está organizando as Obras Completas do Manoel de Barros. O que falta para que elas sejam publicadas e, se não for pedir demais, você poderia nos dizer se elas terão algo “a mais”?

Lúcia: Durante esse período em que estivemos fazendo o filme, de 2006 a 2007, eu organizei a fortuna crítica e escrevi o prefácio para as Obras Completas do poeta, a saírem publicadas pela Record. Estavam prometidas para dezembro de 2006, para os 90 anos do poeta, e estamos às vésperas de seu aniversário de 91 anos e isso ainda não aconteceu. Bom, mas o fato é que também foi uma luta contra a exuberância esse trabalho das Obras Completas . Pois o Manoel, dizendo que não tem fortuna crítica, mas “miséria crítica”, acabou não querendo nada disso no volume de suas Obras Completas. Ele gostou muito do prefácio e me disse que só quer ser levado pelas minhas mãos. Fiquei honrada, claro. E acho que isso é muito coerente com o seu percurso como poeta. Mas não sei o que editora acha disso. Ele não quis fortuna crítica, nem bibliografia sobre, sem biografia, ao final. O prefácio se intitula “Poesia de Mendigos Superiores” e eu creio que consegui escrevê-lo em “tom menor”, como ele gosta. Essa foi a minha luta, porque, apaixonada, eu só queria elogiar, exclamar, louvar. Mas, como o fiz em “tom menor”, ele gostou. E ele me disse, então, recusando a “fortuna”: “não quero elogios, sou vaidoso: sou mendigo superior”.

 
       
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