| | ano 1 | edição 1 | florianópolis, 5 de março de 2008 | | ||||||||||||||||||||
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lance
George Luiz França sem grandes entusiasmos pelo meio digital além do fato de ele ter facilitado em muito a publicação de o que quer que seja (e isso nos interessa), começo a escrever estas linhas. um manifesto? escrevi certa vez um, justamente para rir da idéia de manifesto, já tão descabida em tempos como os nossos. o louco trasilau tem a mão infesta, infecta, apenas. não é dado a revoluções: talvez mesmo pense que não há o que salvar ou que interessa mais o devir do que a conservação. de qualquer forma, reúne, lança: e com isso (lição mallarmaica) jamais abole o acaso do acúmulo de material recebido (e como se escreve nesses dias), ou um corte mínimo de qualidade. não somos, declaramos, não somos vanguarda. tampouco somos nostálgicos. ou talvez sejamos. falo no coletivo, mas também não somos grupo. nem acreditamos na divisão internacional do trabalho. disse drummond, n' a rosa do povo : “o tempo ainda é de fezes, maus poemas, alucinações e espera. / o tempo pobre, o poeta pobre / fundem-se no mesmo impasse.” em 1945. os anos passaram, as fezes políticas, históricas e “literárias” proliferaram: yes, nós temos bruna surfistinha! e não só ela; talvez ali esteja dos males o menor, quando encontramos ambientes “intelectualizados” plenos de figuras blasés, semiprofessorais, que gritam pela “livre expressão” e não conseguem sequer articular com propriedade um pensamento em um período (leia-se: “universidade”, em muitos casos). e ainda insistimos em literaturas, em artes. a que se deve essa nossa teimosia, se também já vimos, com blanchot, que o caminho leva ao silêncio, à renúncia da escrita, à abolição da letra? creio que, puramente, o fato de sermos máquinas desejantes. de encontrarmos nessas escritas, nesses desenhos, mais que protocolo, obrigação, mensagem a comunicar, memorando ao senhor diretor ou coisa que o valha: de encontrarmos um prazer literalmente erótico (ok, menos), um saber que também é sabor, não-cumulativo, mas da ordem da experiência do singular, um-a-um, mais-num-que-noutro, intransmissível, incomunicável. pode ser que esses aqui reunidos sejam tomados como doidos (isso já se anunciam), talvez insossos, talvez pedantes, talvez mais uns. mas estão eles aqui, insistindo, preferindo, se escolhendo, se elegendo. o limiar de seu poder é o silêncio que de alguma forma preferem não praticar. ou que praticam enquanto gritam, enquanto escolhem, enquanto falam. não sei se é o caso de dizer que somos uma antologia: as flores que temos não as apresentamos como as melhores. mas entregamos o buquê, ainda que sem o cartão com os dizeres de enamorado mão-no-peito-coração-a-palpitar. o mar é grande, o desterro é testemunha, nossa senhora ausente não roga por nós, com uma vela debaixo da chuva, la nave va. plena de figuras decaídas em um mundo que não cessa de dizer “make it new”, “nada a fazer” e “tudo já foi feito” ao mesmo tempo e de maneira contraditória, aleatória e até repulsiva, a navilouca (esta que já foi nome de outra efêmera re-vista) anda por aí, cheia desses ébrios e desses rinocerontes, insistentes em um canto sempre interrompido pela dissonância, tão desejada, seja na risada da cigana, nas danças do refugiado ou no inflamado arrulhar dos pombos atrás dos farelos. e nada mais é preciso acrescentar ao destino do trasilau. |
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