| ano 1 | edição 1 | florianópolis, 5 de março de 2008 |
 
 
       
 
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Sobre autoria: Camões ou Borges, tanto faz

Helena Gouveia

“Não queria compor outro Quixote – o que é fácil – mas o Quixote. Inútil acrescer que nunca visionou qualquer transcrição mecânica do original; não se propunha copiá-lo. Sua admirável ambição era produzir páginas que coincidissem – palavra por palavra e linha por linha – com as de Miguel de Cervantes.”[1]

A obra de Borges, segundo a idéia de Antoine Compagnon[2], representa, sem dúvida, a exploração e a exaustão do campo da reescrita. Pois se a escrita, diz ele, é sempre uma reescrita, mecanismos sutis de regulação, que variam ao longo dos tempos, trabalham para que ela não seja simplesmente uma cópia, mas uma tradução, uma citação. “É com esses mecanismos que Borges organiza a violação. Pierre Menard, autor do Quixote, [...] realiza o ideal do texto e pretende que ele se distinga da cópia”.

Sobre esses mecanismos de regulação, Foucault[3] nos diz que os textos começaram a ter realmente autores na medida em que os discursos podiam ser transgressores e os autores, punidos. Em nossa cultura, discurso não era um bem, mas um ato, colocado entre o sagrado e o profano, o religioso e o blasfemo. Quando se escreveram regras sobre os direitos do autor e os direitos de reprodução, em fins do século XVIII e início do século XIX, foi que a possibilidade de transgressão do ato de escrever foi se tornando cada vez mais própria da literatura. Houve um tempo em que textos literários, como contos, epopéias, tragédias, comédias, estavam em circulação e eram aceitos sem que a noção de autoria fosse posta em questão. Os textos científicos, por sua vez, só eram aceitos como verdade se carregassem com eles uma autoria definida. Entretanto, em algum tempo entre os séculos XVII e XVIII os discursos literários deixaram de ser aceitos quando desprovidos de autor. O sentido, o status e o valor do texto passariam a depender, a partir daí, de quem o tivesse escrito, em que data e em que contextos, ou com que projeto. Assim, se de alguma forma - seja por acidente ou por vontade do autor - um texto nos chega na condição de anônimo, a primeira atitude que tomamos é a de busca por um possível autor, não simplesmente para identificar uma origem, mas para dar certa credibilidade ao objeto.

Pergunto-me se realmente houve um grande poeta chamado Luiz Vaz de Camões. Esta mesma pergunta poderia ser feita sobre Homero, Shakespeare e muitos outros grandes “homens” da literatura. Seriam eles realmente homens ou apenas nomes? Teria Camões existido e ainda criado tudo o que se atribui a seu nome? Sabe-se que as idéias de plágio não existiam, como na forma moderna, na antiguidade ou na idade média. Michel Shneider[4] nos diz que há duas formas de dizer que o plágio não seria um problema: não o percebendo em nenhum lugar ou afirmando que ele está em todo lugar, que algo jamais é dito pela primeira vez. Teria Camões copiado ou se apropriado de alguns textos? Ou será que vários textos teriam sido reunidos sob um mesmo nome? Alguns, numa determinada época, sob o nome de Homero, outros, em outra época, sob o nome de Camões, e outros, ainda, sob o nome de Shakespeare?

São Jerônimo, citado por Foucault[5], e utilizando uma técnica bastante parecida com a exegese cristã, explicava, no século XIX, que indivíduos diferentes poderiam usar o mesmo nome para legitimar suas obras, e que por isso, para atribuir discursos a um único e mesmo autor seriam necessários quatro critérios: segundo ele, um autor possuiria certo nível constante de valor, sendo necessário, portanto, retirar da obra textos que fossem inferiores aos outros; um autor ainda possuiria coerência conceitual e teórica, tornando necessária a exclusão de textos com contradição de doutrina; um autor possuiria unidade estilística, o que faria necessária a exclusão de textos escritos com estilo diferente; por último, São Jerônimo dizia que o autor teria um momento histórico definido, o que faria excluírem-se os textos que se referem a acontecimentos históricos posteriores à morte do autor.

Aí está, portanto, uma hipótese: a de que Camões pudesse ser o nome sob o qual se reuniram diversos textos com certo nível de valor e unidade estilística pertinentes a determinado momento histórico (tratando, entretanto, de temas atemporais, o que o faria ser lido com grande apreço até os dias de hoje). Foucault, no entanto, nos alerta sobre o fato de que um romance, por exemplo, apresenta o relato de um narrador que não se remete necessariamente ao escritor, mas a um alter ego que pode manter certa distância entre narrador e escritor. Assim, a técnica de São Jerônimo perderia sua eficácia, uma vez que os relatos de um texto podem conter as opiniões e idéias de um narrador, e não necessariamente de um escritor.

Há algum tempo a idéia de Barthes sobre a morte do autor já é bem aceita pela filosofia e pela crítica literária, ou pelo menos por parte dela. Mas depois dessa “morte” ou desaparecimento do autor, o que se discute é o espaço vago deixado por essa desaparição. Foucault se pergunta sobre o que é o nome do autor. Para ele, o nome próprio do autor teria outras funções além das indicativas: ele seria equivalente a uma descrição. As descrições, por sua vez fariam referência a um nome próprio. Dou um exemplo: dizer Luiz de Camões seria o mesmo que dizer o escritor de Os Lusíadas. Os sentidos seriam diferentes, mas remeteriam a um mesmo referente, e seriam substituíveis entre si: dizer Luiz de Camões era português seria o mesmo de dizer O escritor de Os Lusíadas era português. Voltando a Foucault, ele ainda nos diz que “a ligação do nome próprio com o indivíduo nomeado e a ligação do nome do autor com o que ele nomeia não são isomorfas nem funcionam da mesma maneira.” Exemplifico: se se descobrisse que Camões não tenha nascido na cidade X no ano Y (o que de fato não se sabe), isso não alteraria (como não altera) o funcionamento do nome do autor. Contudo, se se descobrisse que Camões não escreveu os sonetos atribuídos a ele, isso sim pode alterar o funcionamento do nome do autor. Deixarei de propósito essa idéia em suspenso para apresentar o que outros autores pensam sobre temas como este.

O pianista canadense Glenn Gould (1932-1982) defende, no ensaio Contrafação, imitação e processo criador[6], a tese de que a idéia contemporânea de imitação e contrafação não existiu desde sempre. Para ele, no mundo medieval, quando homem e Deus constituíam uma unidade, e em sociedades tribais, em que religião, mito e arte se misturam, praticamente não existiriam as idéias de contrafação e imitação. Ele afirma que nas épocas e nas sociedades que exaltam a individualidade do ato criador é que tais idéias aparecem. Isto, segundo Gould, seria uma forma de protesto surgida sempre que o homem experimentasse se afirmar por ele mesmo. Assim, existiria hoje uma necessidade de originalidade “cruelmente imposta” por nossa época, o que pode se dever às nossas noções de progresso e futuro, que fazem a repetição histórica nos parecer um obstáculo repugnante. Seguindo o pensamento de Gould, nossa cultura estaria estruturada de forma a tornar elevado um conceito de originalidade sem levar em conta que este conceito se afasta do processo de criação. Dessa forma, tem-se um paradoxo: o grau de desenvolvimento de uma determinada cultura seria inversamente proporcional às chances de existir nela uma obra de arte original, primitiva. Gould apresenta a “reordenação” e a “redistribuição de uma combinação de detalhes que não foram anteriormente apresentados juntos” como os atributos mecânicos essenciais para o ato criador.

Mário de Andrade, em carta[7] enviada ao músico Mozart Camargo Guarnieri, faz emergir o termo “falsificação intelectual da invenção”, e explica-o, dizendo que muitas vezes se pensa estar inventando algo, mas não se está. Para ele, isto seria apenas o uso de uma habilidade técnica. Em seguida, afirma que um artista tanto pode imitar um outro artista como pode imitar a si mesmo, no que ele chama de “ordens gerais da criação”.

Em outra carta, entretanto, desta vez enviada a Fernando Sabino[8] em 1942, Mário fala sobre Macunaíma, e assume tê-lo escrito inteiro “em pleno estado de possessão”, ao longo de apenas seis dias. Aventuro-me a pensar que este estado de possessão seja a dita habilidade técnica tomando conta do artista, fazendo-o imitar-se a si mesmo. Assim, longe de esgotar este assunto, arrisco-me ainda a afirmar que Mário de Andrade, ao escrever Macunaíma, não se faz um imitador ou um contrafator ao utilizar textos preexistentes para conceber sua rapsódia, mas sim ao escrevê-la em “pleno estado de possessão”, imitando-se a si mesmo, submetendo-se às “ordens gerais da criação”, por meio de sua habilidade técnica.

Voltemos a Camões, que deveria ser o objeto deste estudo. Em algum lugar no embaraçado tecido de minha memória tenho que certa vez alguém me disse, ou li em algum lugar, que somente um (um!) dos sonetos existentes em uma determinada antologia teria sido realmente escrito por Camões. E agora me pergunto se é relevante ainda saber se realmente Camões teria copiado todos os outros sonetos, de quem seriam, e se este único soneto seria realmente de sua autoria, ou se o teria copiado de si mesmo, submetido às ordens gerais da criação...

Notas

[1] Trecho do conto Pierre Menard, Autor do Quixote, de Borges. Edição de referência: BORGES, Jorge Luis. Ficções . Trad.: Carlos Nejar. Porto Alegre: Globo, 1976.

[2] COMPAGNON, Antoine. O trabalho da citação . Trad.: Cleonice P. B. Mourão. Belo Horizonte: UFMG, 1996.

[3] FOUCAULT, Michel. O que é um autor. in: MOTTA, Manoel Barros (org.). Estética: literatura e pintura, música e cinema / Michel Foucault . Trad.: Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.

[4] SCHNEIDER, Michel. Ladrões de palavras. Ensaio sobre o plágio, a psicanálise e o pensamento . Trad.: Luiz Fernando P. N. Franco. Campinas: UNICAMP, 1990.

[5] SÃO JERÔNIMO. Dês hommes ilustres. Trad. Abade Bareille. in Œuvres complètes . Paris : Louis Vivès, 1878, citado por FOUCAULT, Michel. O que é um autor. in: MOTTA, Manoel Barros (org.). Estética: literatura e pintura, música e cinema / Michel Foucault . Trad.: Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.

[6] GOULD, Glenn. Contrafação, imitação e processo criador. Tradução Fernanda Peixoto Massi. in: Novos Estudos CEBRAP , São Paulo, n. 30, jul. 1991.

[7] BERRIEL, Carlos Eduardo. Duas cartas de Mário de Andrade. in: Novos Estudos CEBRAP , São Paulo, n. 2, v.2, jul. 1983.

[8] ANDRADE, Mário de. Cartas a um jovem escritor . Rio de Janeiro: Record. 1982.

Referência

ANDRADE, Mário de. Cartas a um jovem escritor . Rio de Janeiro: Record. 1982.

BERRIEL, Carlos Eduardo. Duas cartas de Mário de Andrade. in: Novos Estudos CEBRAP , São Paulo, n. 2, v.2, jul. 1983.

BORGES, Jorge Luis. Ficções . Trad.: Carlos Nejar. Porto Alegre: Globo, 1976.

COMPAGNON, Antoine. O trabalho da citação . Trad.: Cleonice P. B. Mourão. Belo Horizonte: UFMG, 1996.

FOUCAULT, Michel. O que é um autor. in: MOTTA, Manoel Barros (org.). Estética: literatura e pintura, música e cinema / Michel Foucault . Trad.: Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.

GOULD, Glenn. Contrafação, imitação e processo criador. Trad.: Fernanda Peixoto Massi. in: Novos Estudos CEBRAP , São Paulo, n. 30, jul. 1991.

SCHNEIDER, Michel. Ladrões de palavras. Ensaio sobre o plágio, a psicanálise e o pensamento . Trad.: Luiz Fernando P. N. Franco. Campinas: UNICAMP, 1990.

 
       
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