| | ano 1 | edição 1 | florianópolis, 5 de março de 2008 | | |||||||||||||||||||||
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Entre falas inacabadas, mãos
Uma entrevista com Manoel Ricardo de Lima
Autor de As mãos e Embrulho (7Letras), entre outros, o piauiense Manoel Ricardo de Lima é professor de Literatura Portuguesa (UFSC), articulista jornal Diário do Nordeste, coordenador editorial da coleção Móbile (Lumme Editor) e da recém-criada Editora da Casa, de Florianópolis, e participa do comitê editorial da revista Inimigo Rumor (Cosac Naify / 7Letras). E no meio de tantas atividades encontra tempo para as pequenas delicadezas da vida, como envelopes amarelos dentro da caixa de correio. Trasilau: O que te impulsiona à escrita? É possível citar o que te leva a escrever? Manoel Ricardo de Lima. Antes eu pensava muito nisso, algo como que ‘diabos de desejo é esse que me faz ter vontade de escrever?' Mas hoje não penso mais, e acredito que seja um pouco de medo (que não deixa de ser uma forma de coragem), um pouco de teimosia e uma vontade imensa de não fazer mais nada. Mas acho, principalmente, que faço isso para não morrer, apenas. Acredito muito pouco no mundo, nas coisas, nas pessoas. E ainda me impressiono com certas capacidades de articulação e desvio de postura por necessidades de manutenção de um cerco de poder, mesmo que seja o cerco de um curralzinho. É por isso que acredito muito, ainda, no que se pode fazer como margem, e como delicadeza. Acho que falimos como projeto humano, como potência, mas é possível alguma sobra de intervenção. Uma sobra que passa por uma impertinência, por algumas insistências e por nosso desamparo. Daí, escrever é um gesto que se desequilibra entre uma aventura e um fazer possível. Trasilau: No seu trabalho, é comum um diálogo com o cinema e as artes visuais; como o Falas inacabadas , em parceria com Elida Tessler. Como se deu esse contato entre a poesia e outras artes? M.R.L. É que para mim a questão da literatura não é disciplinar, mas sim e muito mais um problema do pensamento e da cultura. E como tal, eu preciso e prefiro o contágio, a contaminação, as coisas que não sei, que não conheço. E gosto de fazer as coisas com outras pessoas, com outros trabalhos, com outras linguagens, porque eu gosto muito de conversar e de ouvir coisas que não pensei, que desconheço etc. Este, aliás, é o sentido da conversa. E gosto muito de uma idéia de risco, e não poderia arriscar se não me desse esse arejamento como um direito. Porque isso tem a ver com minha política, com minhas posturas e minhas dignidades. Não abro mão desse arejamento. É meu trabalho, não quer dizer nada, não me leva a lugar nenhum, então eu posso fazê-lo como acredito, sem negociá-lo, sem fazê-lo funcional e sem arrogo. E da Elida a única coisa que posso dizer é que ela é um presente, uma amiga muito. Trasilau: Até onde a literatura aparece como modo de representação - salvação - negação (etc.) da vida? Pra você, de que forma se dá a relação arte – vida? M.R.L - Desconfio muito de que algo possa nos salvar. Desconfio até desta precisão, se precisamos nos salvar de algo. Não tomo a literatura como este prisma, nem muito menos como possibilidade de tocar um suposto real. Se a entendo como minha aventura, ela é pois o meu lance de gravatás, a minha água de chincho. A minha forma de respiro. Trasilau: Como você vê a relação entre teoria literária e trabalho poético? Há uma questão teórica que possa, de certa maneira, ter influenciado intelectual e/ou esteticamente sua produção? M.R.L. Claro que há, dou aulas de literatura. Sou professor. Dou aula desde os 18 anos. Nasci em 1970. Com 27 anos comecei a dar aulas na universidade. Agora, espero que esta situação substituta seja apenas a passagem de uma procela ruim. E assim, não separo a montagem de uma elaboração poética de uma elaboração crítica, e não haveria como – tenho uma coluna de crítica cultural desde 1997, e desde 1992 que colaboro com artigos para jornais, revistas etc. –, creio que o gesto é o mesmo. O manuseio radical deste gesto é que me coloca no mundo com alguma força para o enfrentamento do emperro. E não há uma questão teórica, um arcabouço armado, mas há questões desfeitas, de vida e de livro sem mundo, que me pestanejam, me fazem perder o sono. Como a imagem que está num poema do Horácio Dídimo, para crianças, num livrinho bonito chamado O Passarinho Carrancudo , que diz que de nada nos serviria ter o sol trancado no guarda-roupa, debaixo de sete chaves. Trasilau: Seus textos transitam entre a poesia e a prosa, alguns ficam fora de qualquer tipo de classificação (o livro As mãos , por exemplo). De que maneira você lida com essa necessidade de classificação vinda tanto dos críticos quanto dos leitores ‘leigos'? M.R.L. Eu não lido. Eu apenas converso sobre isso. Mas não lido. Já perdi pontos em aprovação de projetos por causa disso, mas não interessa. É mais importante quando pessoas que gosto ou que considero interessantes sabem ler o meu trabalho como uma abertura e uma diferença para elas e para o trabalho delas. Só isso. Não aceito a idéia de que há um leitor leigo, porque penso a leitura como se fosse uma trajetória sensível, como o traço que cumpre o desenho de uma voluta. Lembro a cena de uma senhora muito velhinha já, amparada no braço de uma moça, atravessando umas esculturas numa exposição de Amílcar de Castro, aqueles encantos de torções e dobra, e que depois de confessar não saber do que se tratava arriscou uma fala de frente para uma das peças: “isto ficaria lindo em casa”. Não era uma peça de decoração, provavelmente a peça atrapalhasse o andamento da casa, a passagem das pessoas pela sala, pelo corredor, pelo quarto, enfim, mas esta imprecisão sensível faz dessa senhora, para mim, uma leitora especial. E não uma leitora especialista, esta abominável condição de fantoche ou de papagaio. Adoro quando alguém diz que leu algo dos meus livros, assim, à toa, e que precisou reler porque achou ruim, estranho, desajeitado, fora de lugar. Gosto de saber que meus livros têm sotaque. E sotaque, no Candomblé, é um conjunto de versos que se canta durante o culto, são versos que são dirigidos a alguém que não se quer bem e que está presente no barracão, para que saia dali, para que se afaste da casa e do culto. Gosto quando meus livros provocam afastamento, gosto quando meus livros têm sotaque. Trasilau: De que maneira se deu seu contato com a literatura portuguesa? Como você lê as literaturas de língua portuguesa? Há elementos que permitam ligar as produções literárias dos países lusófonos? M.R.L. Ah, mas isso é uma paixão. Dei aula de literatura portuguesa pela primeira, logo que entrei na universidade, em 1997, pra uma gente que aumentou meu gozo com Camões, por exemplo. Tive esta primeira sorte. O primeiro contato eu já não lembro, mas acho que foi ainda durante o curso de Filosofia, com 17, 18 anos (mas lembro que a moça que atendia na livraria – Marilene, o nome dela –, ali, achava que eu cursava Letras porque comprava exageradamente livros de poemas). A minha biblioteca de poesia é, de fato, a minha maior estima. Mas o dado é que se a língua difere o plano político de ação entre os países falantes do português, há uma outra sugestão para uma tentativa de ajuste a partir e através da língua, que não gosto muito, porque prefiro retirar as coisas de suas conformações e ampliar o tamanho do paradoxo, ao menos para tentar manter o paradoxo aberto, mesmo que numa circunstância bêbada, ofegante. Assim, teimo que o que nos liga é também o que nos difere. É quanto uma língua pode nos emprestar como pretensão para montar um território às avessas. Acho isso uma das coisas mais legais, mais prenhes. Trasilau: Como você percebe a produção literária, mais especificamente a poética, brasileira atualmente? M.R.L. Acho que isso está e aparece melhor no percurso de meus textos como crítico cultural. Rápido assim pode ficar grosseiro, e sempre fica. Mas está na coluna que foi no Jornal O POVO durante dez anos (1997-2007), e agora é no Diário do Nordeste , jornal do Grupo Globo (virei uma espécie de Bozó, personagem do Chico Anísio nos idos anos de 1980). Como está nos textos espalhados por aí, da revista CULT (quando era uma revista bacana, editada pelo caríssimo Manuel da Costa Pinto) até a primorosa Sebastião (que só teve dois números), passando pela Sibila (que também fui editor durante os três primeiros números, junto com o Régis Bonvicino, que mantém a revista até hoje), pela Infos Brèsil (FRA) entre várias outras. Depois, as colaborações pelo Jornal do Brasil , pelo Correio Braziliense etc. Porque dedico muito de meu tempo a ler mesmo a produção brasileira do presente, e os livros chegam até em casa, muito. Os livros vêm dos amigos, dos interessados, dos distraídos, dos diretos, dos incautos etc, e vêm muitos livros, e gosto de receber envelopes com livros dentro. É uma das atividades favoritas do meu dia: abrir estes envelopes. Quando não chega nada, o dia é um pouco mais triste, me parece; mas sempre chega, amém. Não me pauto como um ufanista dessa produção, nem muito menos com um olhar apocalíptico para ela, gosto do que ela tem de desequilíbrio, desajuste, impasse. Gosto disso. O que por outro lado comparece também no meu próprio trabalho com o poema, que está por aí publicado em algumas revistas como a Inimigo Rumor (RJ/SP) Grumo (Bra / Arg), a Jandira (MG), a Germina (MG), a Oroboro (PR), o Suplemento de Minas , a Modo de Usar & Co (RJ), a Circumference (EUA), a Review (EUA), a Quimera (Espanha) etc. Trasilau: Século XXI: onde a poesia? M.R.L. Quem sabe no próximo envelope amarelo dentro da caixa de correio. Isto pode ser um Zeitgeist; o meu, mas pode ser. |
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