| ano 1 | edição 1 | florianópolis, 5 de março de 2008 |
 
 
       
 
editorial

Impressões ou Inscrições Poéticas
(ou uma justificativa “exegética”
de Sim e Não)

Tudo o que é faústico me é alheio; milhares de perguntas emudecem, como se estivessem respondidas. Não há doutrina verdadeira nem falsa ali. As possibilidades são infinitas. Apenas a crença nelas vive em mim, criativamente.
Paul Klee, em O ponto de vista próprio.

Ego nihil scio.
Petrônio, Fortunata.

Como se portar diante de textos tão díspares, como proceder à violência de uma seleção, de uma idéia de antologia? Eis o primeiro problema que aparece quando se tem, de alguma forma ou de outra, de impor o corte, o “não” e o “talvez”. A quais limites deve se prestar tal operação?

Em um primeiro momento, impomos o limite da pele, que seja possível ler no texto alguma inscrição de mundo, um mundo possível em qualquer instância.

Já em um segundo momento, quando o proceder, talvez, torna-se leitura meticulosa, o que buscamos não foi uma idéia exacerbada de vanguarda, não saberíamos afirmar se há a possibilidade de salvação, e se de fato queremos salvar alguma coisa (creio que não, em nenhum dos casos, não parece ser esta nossa preocupação); mas, ainda assim, não quisemos incorrer diretamente no campo oposto, o do monumento e do ufanismo. Im pomos, talvez uma idéia “medíocre” aqui, tentando um resgate etimológico (mediocritas), de fatos e coisas, para nossa relação com o(s) texto(s).

Elegemos em primeira instância o corpo (na profundeza da pele), sempre o corpo em sua parte mais tangível, digna de ser marcada, dilacerada ou morta. E procedemos ao silêncio daqueles que, talvez culpados, não têm muito a dizer, ou muito têm, mas, no meio de tantas vozes, só calando, de alguma forma, poderiam fazer falar.

Talvez, o caráter (in)digno e travesso do censor de arte possa vir à tona. Ouvimos rumores da multiplicidade de instâncias literárias várias, as quais não saberíamos dizer se nos comportaria adentrar ou não. É complicado tomar uma decisão, quando essa marca na pele. Circuncisa.

O que está em jogo é uma relação de contrato, o que aqui vai resultado de algum deliberar e muito ruído. Há aqui ainda a idéia de fascínio, da busca, talvez de nossa verdade “atópica”, por isso escolhemos escrever em ausência, uma ausência de “mim” (que é um “nós”), mas na presença de uma possibilidade de leitura (que nos faz partilhar responsabilidades e a voz de um discurso possível), e esquecer justificativas. Nada do que se escreve, retira o marco intermitente da agressão primeira. A luta pela posse da última palavra.

Quando pensamos nesta idéia de contato, na idéia das peles que se tocam, do tato que se põe em jogo e na superfície de um discurso, que não se quer único, mas também que se vê como a possibilidade última de se dizer algo.

Pedimos desculpas, ainda se por algum motivo deixamos de lado os poemas tão caros à moda do século XVIII, da literatura para jovens donzelas porem a mão no coração ou relatos de amor impossível, do drama do gatinho preso na árvore. Sentimos muito (ou talvez isso seja mera retórica), mas nada de grandes descampados e sonhos líricos de amor. Invocamos a natureza que hoje é a da cidade, com todas as suas implicações e possibilidades, mesmo da cidade como arma, deserto, desafio à vida.

E ao tentar buscar alguma ligação com a figura do “louco” Trasilau, ao que apelamos é lembrar que nem todos são loucos aqui, como diria Barthes, o louco que escreve sempre é um trapaceiro. Do jogo de relações entre corpo e linguagem que nos impõe a arte de viver acima do abismo que é a existência.

É uma primeira tentativa, o que não nos isenta de responsabilidade alguma de proceder esta experiência que nos parece ligada diretamente às condições de vida. Este corte, assassínio que nos aproxima da condição do “criminoso”, nos impõe questões ainda maiores e impossíveis: o que é isto que temos diante de nós? como devemos nos portar? quais as restrições impostas? E, mesmo sabendo que este movimento de salvar alguns escritos para este arquivo de momento, isto também levanta a questão do que salvamos para matar.

São múltiplas as inferências possíveis. O que ainda lembra a idéia de Foucault, em As palavras e as coisas (citamos para tentar uma defesa pertinente): “o que erige a palavra como palavra e a ergue acima dos gritos e dos ruídos é a proposição nela oculta”, e mais ainda: “quando se diz ‘não', não se traduz a recusa por um grito; resume-se numa palavra ‘uma proposição inteira: ... eu não sinto isso, eu não creio nisso'”.

 
       
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