| | ano 1 | edição 1 | florianópolis, 5 de março de 2008 | | ||||||||||||||||||||
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Sucateira
"você fala sempre da minha voz. mas por vezes tenho quase a certeza de que não é minha. eu sou uma garganta, um diafragma, um sopro. não sei de onde vem a voz. sou só um instrumento, uma simples moça que até tem medo desta voz porque toda a vida me obrigou a fazer o que queria.”
Minha gente, gente amiga (ai, sou tão comunicativa!), não vou ficar aqui dando muito detalhe sobre o que vou fazer com esse espaço, nem traçar plano nenhum. Afinal, ele é meu, conquistado com o ardor do suor de uma vida social, intelectual e artística de mais de cinqüenta anos, portanto, tem que estar conectado a tudo quanto pode se chamar tendência neste mundo que insiste em achar que tudo quanto é lixo tem seu lado aurático ou que tudo quanto é aurático bem que podia ser lixo ou tem uma dimensão chata à beça. Umas lições de imoralidade não fazem mal a ninguém, quem gosta de poesia também assiste à novela das oito e não é preciso deixar de ler bons romances para prestar atenção por um segundo no submundo post-moderno. A ver o que temos por agora. Não entendeu algum nome, alguma referência? Google, minha gente. Google é a memória do mundo. Arquétipo de Funes. Cinematerial E Madonna se lançou no Festival de Berlim. Tudo bem, a dona-diva tem sua importância na noite, dorme no formol (porque consegue estar invejavelmente mais inteira aos 50 do que muita gente com 20; no entanto, ainda não vence a Cher, cuja idade é desconhecida e, mesmo assim, segue diva “há mais de quarenta anos”) e, claro, nenhum de nós seria igual se Tarantino não tivesse ouvido Like a virgin e dito tudo sobre uma puta que de uma hora pra outra acha o necão dumdum e sente-se “tocada pela primeira vez” (é bem assim que Gizele, a madonninha capixaba, canta), ou ainda, sem ver os leões andando por Veneza, com todo aquele desejo aristocrático que faz a gente se roer de inveja por não poder cantar e dançar em cima de uma gôndola. Mas, tudo bem, chega de fazer biografia despeitada e vamos à vaca-fria: acontecimentos recentes. Primeiro, a mãe da menina que não faz a sobrancelha disse que andava se inspirando em Godard, Pasolini, Fellini (ôôô, diria Aline Durel) e... Visconti. Gente, jurando que a Madonna já viu um filme do Visconti (nem eu vi), ou no mínimo do Godard. Imagina agora, meados de vida, decidindo ser cineasta, mesmo sendo diva, mas tendo uma carreira de atriz que a crítica julga pífia, a mulher querer ser essa cineasta. Adoro uma pitada de nobreza, mas aí a gente já começa a lidar com pretensão. Será que o fato de o Filth and wisdomir “direto para a internet” tem realmente a ver com o fato de que “será melhor aproveitado na rede”? Ou é medo de falta de público? Bem, de qualquer forma, hoje em dia, cinema é luxo e o povo baixa as coisas de qualquer jeito, sem dó nem piedade. Mas... a melhor é que tanto ela, como o resto do pessoal que foi na festinha de aniversário “Socialista” da Ashton Kutcher (é, “da” mesmo) vai ter que tomar vacina de hepatite A. Imagina que lindeza é chegar um dia de manhã no Posto de Saúde (economiza, Madonna não vai em posto de saúde, mas não custa fantasiar) e encontrar a Madonna, o Bruce Willys e a Salma Hayek tomando... vacina para hepatite. É, essa galera também é mortal. E vai acabar no mesmo buraco que você. Chorando se foi, como volta? Há dois anos tenho previsto que, já que estamos em tempos de catar cacos da década mais excessivamente brega da história mundial, qual seja, os fabulosos 80 do século XX, acabaríamos por transformar a dançante lambada no futuro. Voltaríamos às saias rodadas, às calçolas largas com fitas na cintura, dançando na praia ou tendo devaneios surrealistas com bonecos de ventilador, como na abertura da novela que dá título a esta coluna? Mesmo que voltássemos, não seria igual, e acho que a coisa é irreversível. Agora, a gente pode não voltar, mas Loalwa e seu cabelo de tule já anunciaram seu retorno. Aí quem lê isso aqui (se é que alguém tem paciência para tanto olho na tela) pergunta: quem? Respondo: você sempre achou que Kaoma fosse o nome de uma mulher. E era o de um grupo. Sim, uma coisa agenciada por uns empresários franceses ao sabor dessas de exotismo, paraíso tropical e tudo o mais que a gente cansa de saber que gringo procura no Brasil, e que tinha uma vocalista chamada Loalwa. O melhor de tudo é saber que o que retorna é um recalcado de grande importância histórica. Segundo a própria, Chorando se foi era a música cantada enquanto derrubavam o Muro de Berlim. Por essa nem Stalin esperava. E aí, Lula, vai uma lambada? Doutros tempos E com esses tais anos 80, passo a lembrar de outros. Penso em como seria ter nascido nos 80 do século XIX. Sem ser feminista, claro, porque não ia querer virar engomadeira ou sequer uma dessas daminhas de Eca de Queiroz (a supressão da cedilha não é depreciativa, é mero jogo). Pra fazer uma comparação só com o ano em que se deu a queda do Muro ao som de lambada, ou com as eleições que nos deram Collor, vejamos que no século anterior, em 1889, Freud estava aperfeiçoando a hipnose, inaugurava-se a Torre Eiffel e ainda atentavam contra o preclaro monarca Pedro II. Perdíamos a aristocracia ao som do último baile da Ilha Fiscal. Criavam-se os elevadores elétricos, coisa muito prezada por alguém que vez ou outra vê seu dilacerado pulmão de fumante ter de trepar escadas. Nasciam Chaplin, Wittgenstein, Cocteau, Heidegger e Anita Malfatti. Tudo bem, não vou idealizar, nasceram aberrações como a péssima pintora de bigodinho que se chamava Hitler ou a infeliz da Salazar. Enquanto isso, no perdido do século XX, além de Collor, tínhamos Menem eleito na Argentina e o demônio, ops, o Edir Macedo comprando a Record e começando esse bizarro folclore universal de sessões do descarrego televisionado para todo o Brasil. Nascia quem? O ator que encarnaria o Harry Potter. Quem mais? Tudo bem, a história ainda não deu margem pra muito mais gente ser alguém realmente importante. Mas é bem relevante pensar no que morria. Salvador Dali, Fernando Namora, Aurélio Buarque (sim, o do dicionário), Paulo Leminski, Nara Leão, Lawrence Olivier, Luiz Gonzaga, Raul Seixas, Bette Davis. E, para mim, a maior perda de todas. Samuel Beckett. Sim, costumo ter nostalgias do que (não) vivi. Mais, s'il-vous-plâit, décadence avec élegance. Despede-se aos prantos e beijos, Mme. Blois |
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| universidade federal de santa catarina | centro de comunicação e expressão | departamento de língua e literatura vernáculas | ||||||||||||||||||||